terça-feira, 5 de abril de 2022

Juan Antonio González Iglesias

 Escuto a água limpa


                              Para Victor Herrero de Miguel


Escuto a água limpa
que desce da montanha depois da chuva,
o gorjeio do pássaro
na tarde
primaveril de outubro,
a resposta de 
cada coisa a cada coisa. Caem
folhas sobre a terra como frutos.

Não acredito
que a névoa de ontem,
o sol de hoje,
esta chuva de agora,
este aroma sem preço
sejam só para mim.



(Versão minha. Fonte: Confiado; Visor, Madrid, 2015, p. 49)

quarta-feira, 30 de março de 2022

Miguel d' Ors

Talvez nisto consista a poesia


Umas poucas palavras que possam mais que o tempo.
Talvez nisto consista a Poesia.
Umas quantas palavras que arranquem da morte,
como Jesus fez com Lázaro, as horas já vividas.
Que tragam, por exemplo, a este agora os avós
com o Leão e as vacas - a Roxa, a Morena e a Linda;
que eu volte a subir, com a espingarda ao ombro,
pelo Monte da Arcela acima
e que aqueles verões que duravam dois meses
durem toda uma vida.

                                                         15-XI-2020


(Versão minha. Fonte: Viaje de invierno; Renacimiento, Sevilha, 2021, p. 15).

sexta-feira, 25 de março de 2022

Timur Kibirov

 DOIS POEMAS


Uma velha canção sobre a coisa mais importante



Ela encheu-nos de bebida, a nossa terra natal,
e de comida mais ou menos suficiente.
E, se é verdade que nos chegou a roupa ao pelo, por outro lado
não nos bateu com toda a sua força.

Mas nós não a amávamos, tal como
ela não nos amava a nós.


***


Historiosófico



"Não podes compreender a Rússia com a tua mentalidade."
Não podes compreender a Polónia, ou a Albânia,
a Nigéria, Cuba, ou a Tasmânia,
as Caraíbas ou a Grã-Bretanha,
a Guiné Equatorial, a Áustria-Hungria,
Roma ou a Terra do Meio ou Nárnia -
elas são únicas, e são como são.

"Tudo o que podes fazer é acreditar na Rússia."
Não, tudo o que podes fazer é acreditar no Senhor.
Tudo o resto é uma fraude sem remédio.
No entanto, como decidiste tirar-lhe as medidas,
foi-nos concedida a nossa recompensa:

podes viver mais ou menos na Rússia,
desde que sirvas a Pátria e o Czar.



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de James Womack. Fonte: Modern Poetry in Translation (War of the Beasts and the Animals - Russian and Ukrainian Poetry; 2017, nº 3, p. 170).

sábado, 19 de março de 2022

Vasyl Holoborodko

 [Os homens começaram a reunir-se]



Os homens começaram a reunir-se
todos rapados com pente zero
(deste corte também se diz que é "à maluco")
e eu não sabia
se eram todos futuros soldados
(e onde estavam os seus estandartes e tambores?)
ou simplesmente prisioneiros
(mas então por que não traziam os seus trajes festivos às riscas?)
ou se as suas mulheres lhes haviam arrancado as madeixas.
A mim disseram-me:
olha a essência;
então compreendi, que nos próprios olhos observo,
como o princípio da igualdade se materializa na vida.
Quem se lembra da clandestinidade dos guedelhudos?:
prendam-nos e tosquiem-nos.
Quem é que alguma vez escreveu um verso sobre o ramo hirsuto 
                                                                                     da macieira?
Há que podar: a) o autor
                       b) o verso
                       c) o ramo hirsuto.



(Versão minha. Fonte: Una iconografía del alma -Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral / Edições UNESCO, Málaga, 1993, p. 179.)

sábado, 12 de março de 2022

Marta Eloy Cichocka

Trinta e quatro



senti o fogo
nas minhas costas
fugi descalça
não tive tempo de
agarrar em nada
de vestir nada

de meter nada
no bolso o passaporte
o telefone um amuleto
uma pedra verde
o meu batom preferido
tudo isso

ficou para trás

e à frente

o silêncio



(Versão minha. Fonte: Luz que fue sombra. Diecisiete poetas polacas (1963-1981); selecção e tradução de Abel Murcia e Gerardo Beltrán; Vaso Roto, Madrid, 2021, p. 95).
 

terça-feira, 8 de março de 2022

Timur Kibirov

 Nota bene



Fui à América. Subi ao topo dos arranha-céus.
Conversei com Brodsky, e ele disse-me para 
não autografar os meus livros na diagonal, pois 
isso é vulgar e pretensioso. Este importante conselho
foi-lhe dado pela Anna Andreyevna Akhmátova,
e agora é a minha vez, rapazes, de o passar a vós.
Que vergonha, se as coisas continuarem assim, que 
não haja aqui ninguém a quem possais dizer alguma coisa.



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de James Womack. Fonte: Modern Poetry in Translation (War of the Beasts and the Animals - Russian and Ukrainian Poetry; 2017, nº 3, p. 171).

sábado, 5 de março de 2022

Lina Kostenko (1930 - ...)

 Matemática superior



Soma e resto da vida.
Tábua de multiplicar.
A raiz quadrada das visões do romântico.
Escrevemos dois, observamos três.
Disseminada
e vulgar
matemática
quotidiana.
A alma deseja elevar-se a um plano superior.
A alma conta o total da superfície:
o passado - o presente - os vivos e aniquilados,
a verdade - a poesia - a chuva atómica.
O dragão - as musas - o telefone - os mirtilos,
a fé - o vírus - os milhões - os nulos...
A vida opera infinitamente com os pequenos.
Todos somos únicos - também diminutos.

Mas de todos os gestos
e apertos de mão,
da mentira, conjunto liquidado,
a história - o mais completo dos ensinamentos -
calcula o ETÉREO INTEGRAL.

Das migalhas estelares mais minúsculas!

A eterna matemática superior:

        da soma dos infinitamente pequenos
        resulta o infinitamente grande.



(Versão minha. Fonte: Una iconogafía del alma. Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral/Ediciones UNESCO, Málaga, 1993, p. 89).



terça-feira, 1 de março de 2022

Mykhaylo Semenko (1892- 1939)

 Peça poética sobre si mesmo



Porque sou feliz quando encontro uma palavra
Apaixonado pela pausa adoro os intervalos de uma língua desconhecida
Sou um poeta lírico entusiasta dos extensos parênteses entre um verso e outro
Sou um sonhador visionário ainda muito mais exagerado
Sou um poeta da desolação e do júbilo depois da angústia
Sou um poeta da dor e do encanto depois do tormento mortal
Sou brando como os olhos suaves, como as sobrancelhas sedosas da amante
Sou um poeta visionário das substâncias temperadoras e do aço
Sou um lírico e um trampolim poeta das árias sonoras pausa dos cantores afinados 
                                                                                                 [e do amor apaixonado.



(Versão minha. Fonte: Una iconografia del alma. Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral / Edições UNESCO; Málaga, 1993, p. 33).

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Hrehory Chubay (1948 - 1982)

 [No século vinte viver não é...]



No século vinte viver não é tarefa fácil,
Pois cada instante é angustiante,
E o átomo pode ser dividido,

Pelo contrário a alma não se cindirá
Em duas partes ou em múltiplas
Partículas de substância vilipendiada.
Num mundo armado os versos
Permanecem alinhados ao lado dos mísseis.
Quando falam de guerras por terminar
Pronunciam palavras de mortal sacrilégio.
... No século vinte há que viver
Por aqueles que não puderam fazê-lo.
E sofrer uma dor multiplicada por vinte
Passando pelo tormento até à vigésima vez.
Pelos vinte há que arar a terra.
Pelos vinte há que carregar a tristeza.
Pelos vinte há que voar até ao céu
E trazer o conserto ao mundo:
Para que cada um viva um pouco mais por si mesmo
No futuro século vinte e um.


[1990]



(Versão minha. Fonte: Una iconografia del alma. Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral/Edições UNESCO; Málaga, 1993, p. 186).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Marta Eloy Cichocka

[Dá a ideia de que...]



Dá a ideia de que na palma da mão tenho toda a cidade, e quando fecho
o punho os campanários cravam-se debaixo das unhas, e quando enfio
as mãos nos bolsos os carros embatem uns nos outros,
dá-se um terrível choque em cadeia, cruzes cheias de vidros
partidos, pequenas ambulâncias desesperadas... Por isso não me 
perguntes por que pinto as unhas com as mãos a sangrar.



(Versão minha. Fonte: Luz que fue sombra. Diecisiete poetas polacas (1963-1981); selecção e tradução de Abel Murcia e Gerardo Beltrán, Vaso Roto, Madrid, 2021, p. 61).

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

É Por Isso Que A Alegria É mais alta

Poemas russos dos séculos vinte e vinte e um




(Mais informações aqui).

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Victor F. R. Redondo

 Tráfego pesado



Um pássaro com um caixão na boca.
Um galeão de ouro tripulado por ratos brancos.
Um peixe que quando nada em águas duplas rasga o casco de todos os barcos.

Uma hora na nossa vida que não chegaremos a recordar.
Uma garrafa de uísque vazia com a língua dum náufrago.
Uma palavra que não poderei pronunciar quando me for.
Um vagabundo dormindo debaixo duma ponte.
Um navio cuja tripulação não conhece o mar.
Um erro que voltarás a cometer.
Uma fantasia homossexual que te obceca.
Um verdugo aterrorizado a barbear-se com uma navalha, frente a um espelho.
Uma carruagem de metro onde ela murmura: "Tudo está perdido".

A solidão de um homem que viaja pelas suas veias e se perde antes de chegar.
A obrigação dos relógios andarem para trás para evitar a degolação.
O espaço interior de um caixão e o espaço que o rodeia.
O íman que não atrai sequer a sua sombra.
Uma igreja de cadeiras eléctricas.

O leque fantástico com o qual poderias atrair planetas até à tua janela.
Tudo o que cabe num espaço similar ao triângulo formado pelo ângulo da inclinação 
                                                                                                             [da Torre de Pisa.
Nunca assassines aqueles que não amas. Negoceia os teus segundos com a eternidade.



(Versão minha. Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introduçãode Leopoldo Castilla; Hiperión, Madrid, 1987, pp. 95-96).

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Rafael Felipe Oteriño

 Linhas da mão



Linhas da mão, linhas da vida,
pontos cardeais extraviados na pele,
suplico-vos que não digam toda a verdade:
mesmo que a vida seja curta em extremo
afirmem que o olhar mente
e que uma leitura mais atenta
poderia revelar
quanto andarão os pés,
quanto suplicarão ainda os lábios.



(Versão minha. Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Catstilla; Hiperión, Madrid, 1987, pp. 62-63).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Santiago Kovadloff

 Quer dizer



Sim, as fissuras, já sei;
as fissuras, as poucas
conclusões.

Não, não é tarde;
é uma determinada dor aqui,
sim, aqui,
onde estava
a cabeça.



(Versão minha. Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla; Hiperión, Madrid, 1987, p. 35).

sábado, 29 de janeiro de 2022

Alberto Szpunberg

 Também quando se come se fala



Neste prato esmaltado cabe toda a sopa que ainda fumega,
o raio de sol fere o jogo do vapor no ar
e tu ficas a olhá-lo, em silêncio.
Colocas a colher na borda do prato,
lentamente, como se temesses que o ruído despertasse alguma recordação.
À tua frente a tua filha sorve a sopa
e com um fio de massa entre os lábios pergunta-te se hoje é amanhã.
Hoje é hoje, dizes-lhe, e amanhã é amanhã, mas sorris
e ensinas-lhe que a colher pode flutuar na sopa como um barco,
um barco pesado e fumegante que sabe ir e voltar, voltar também.


(Versão minha: Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla, Hiperión, Madrid, 1987, pp. 11-12).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Jean Franco López

 O impossível



Que Deus seja uma negra faminta
e os papas morram na pobreza;
que as rosas nasçam sem espinhos
e as rãs tenham cabelos loiros;
que os políticos não façam mais promessas
e os comerciantes sejam exactos na pesagem;
que os argentinos se mostrem modestos
e os cubanos não tenham opiniões;
que os polícias ofereçam guloseimas
e os médicos confessem a sua ignorância;
que os jornais do governo critiquem
e a oposição valorize os progressos;
que em Deus se reconheça algum defeito
e se descubra uma virtude do Diabo.



(Versão minha. Fonte: Diez poetas cubanos; organização de Juan Nicolás Padrón; DECO McPherson, Miami, 2019, p. 18).

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Ilya Kaminsky

 Durante a guerra fomos felizes



E quando as casas dos outros foram bombardeadas, nós

protestámos
mas não o suficiente, opusemo-nos mas não

o suficiente. Eu estava
na minha cama, em redor da minha cama a América

estava a desabar: casa invisível a seguir a casa invisível a seguir a casa invisível.

Pus uma cadeira cá fora e olhei o sol.

No sexto mês
do desastroso reinado na casa do dinheiro

na rua do dinheiro na cidade do dinheiro no país do dinheiro
o nosso grande país do dinheiro, nós (perdoem-nos)

fomos felizes durante a guerra.



(Versão minha; original aqui).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Nicolás Guillén

 Digo que não sou um homem puro



Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se o puro existe.
Ou se, digamos, é necessário.
Ou possível.
Ou se sabe bem.
Por acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água do laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigénio e hidrogénio?
Bah! que nojo.

Não te digo pois que sou um homem puro,
não te digo isso, pelo contrário.
Amo (as mulheres, naturalmente,
pois o meu amor pode dizer o seu nome)
e gosto de comer carne de porco com migas,
e grão-de-bico e enchidos, e
ovos, frangos, carneiros, perus,
peixe e marisco,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (mesmo de estômago cheio).
Sou impuro, que queres tu que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
penso que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.
Por exemplo, a pureza do nonagenário virgem.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos colégios internos onde
a fauna pederasta
abre as suas flores de sémen transitório.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos linguistas.
A pureza dos que asseguram
que temos de ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza daquele que nunca sugou um clítoris.
A pureza da que nunca pariu.
A pureza do que nunca procriou.
A pureza do que golpeia o peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.

Ponto final, data e assinatura.
Assim o deixo escrito.



(Versão minha. Fonte: Poesía cubana del siglo XX; selecção e notas de Jesús J. Barquet e Norberto Codina; prólogo de Jesús J. Barquet; Fondo de Cultura Económica, San Lorenzo (México), 2002, pp. 130-131).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Kenneth Rexroth

 Veados



Os veados são gráceis e delicados
e têm olhos doces.
Não magoam ninguém para além de si,
os machos, e só por amor.
Os homens inventaram milhares
de maneiras de os matar.



(Versão minha. Fonte: aqui).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Jorge Aulicino

 Coloristas



Há nesse bosque de Cézanne
a impressão de que esse bosque não está
nem esteve.
Não porque seja sonho, enredo de sonhos,
mas porque está pintado em parte
numa tela,
em parte no nada e - em grande parte -
no local onde vimos um bosque.



(Versão minha. Fonte: La doble sombra. Poesía argentina contemporánea; selecção de Antonio Tello e José Di Marco; Vaso Roto, Madrid, 2014, p. 47).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Rafael Felipe Oteriño

 A partir desta idade



A partir desta idade vê-se tudo:
vê-se a margem impetuosa,
vê-se o fulgor das colinas,
vê-se o pátio onde tudo acontece,
vêem-se as portas que ninguém abre,
vêem-se os desertos que ninguém celebra;
vê-se o mar e vê-se a espuma do mar,
vê-se o rio que vem da infância,
vêem-se as nuvens correndo leves mais além,
vê-se a lua e o esplendor da caverna
- o cume como um pensamento inacabado - 
vê-se o centro do mundo sem se mudar de lugar,
vê-se por cima e por baixo, à direita e à esquerda, com os olhos fixos,
e vêem-se nítidos, feitos de espanto e liberdade,
os nossos pés desnudos no ar
sem encontrarem nunca a terra firme que procuram.



(Versão minha. Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla, Hiperión, Madrid, 1987, p. 63).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ilyas Zhansuguirov (1894-1938)

 Nevão



Um nevão maciço tapa-nos com a sua neve.
O frio intenso revela-se bem duro.
Ao rés do vento as ovelhas avançam,
as suas cabeças protegem-se na direção das correntes de ar.
A neve vai aumentando, esconde-se em si mesma
e ressurge incessante.
Apoia-se no teu cajado junto às tuas ovelhas.
Taímas o indigente treme.
Tem uma pedra de afiar atada a uma corda.
O seu avental de feltro reluz enquanto se arrasta.
Entre as costas e o peito abre-se lentamente.
Os joelhos brilham debaixo das calças.
O seu corpo arrefece à medida que se move.
O vento silva, sopra asperamente.
A neve acumula-se congelando-lhe o pescoço.
Pingentes de gelo aparecem-lhe pendurados na barba.
Com o seu gorro de raposo e o sobretudo quente,
Duisek o rico está ao frio na colina
e grita: "Leva para longe esse rebanho das ovelhas!"
Fazendo-se passar por dono de Taímas,
vocifera em altas vozes:
"Que não te aproveite o que roubaste, cão!",
e prossegue, grasnando entre os corvos.



(versão minha. Fonte: Antología de la poesía kazaja contemporánea (Siglos XIX, XX y XXI); selecção de Justo Jorge Padrón; Ediciones Vitruvio, Madrid, 2017, p. 97).

domingo, 12 de dezembro de 2021

Jorge Aulicino

 O muro dos fuzilados



O problema do muro dos fuzilados
é que está em qualquer sítio.
Não se pode dizer: foi aqui,
aqui caiu Pancho, ali González,
mais além, com espuma sangrenta nos lábios,
Enrique gritou "viva a Revolução".
Não se pode dizer esta é a parede,
aqui, estes ladrilhos talvez estejam
salpicados de sangue.
Os fuzilados apostam que não é o momento
de morrer fuzilado.
Um caiu com os olhos abertos,
outro, duro como um tronco:
à força de disparos
só então a história se ilumina.
Só então, por um instante.
Mas esse não é o jogo.
O jogo prossegue, há outros dados,
não revelem a ninguém o muro
dos fuzilados.
Os fuzilados não querem monólitos
nem pedras nem o quadro dos fuzilados.
Os fuzilados queriam que se dissesse "não sei"
se alguém pergunta pelo muro dos fuzilados.
Não sei onde está o muro, não sei, é cedo,
não sei nada de González, ou de Pancho.



(Versão minha. La doble sombra - Poesía argentina contemporánea; selecção de Antonio Tello e José di Marco; Vaso Roto, Madrid, 2014, p. 50).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Gloria Fuertes

 Porque não me casei (Autobio)



Em 36 tive um noivo que me amava muito,
mas dedicava-se à política,
e entre o poder e a Gloria
escolheu o primeiro.
Depois tive outro,
na outra
banda,
mas mataram-no.
Por isso sou pacifista e
solteira.



(Versão minha. Ellas cuentan la guerra - Las poetas españolas y la guerra civil (Antología 1936-2013); selecção de Reyes Vila-Belda, Ranacimiento, Sevilha, 2021, p. 239).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Juan Carlos Moisés

 [Quem me viu?]



Quem me viu?
Na zona por onde andei ladraram.
A noite era demasiado negra
para que alguém - fosse quem fosse - pudesse dizer:
- Era ele. Vimos a sua cara.

Mas quem pode acreditar em cães cavalos galinhas pintos.



(Versão minha. Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla, Hiperión, Madrid, 1987, p. 101).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Juan Bonilla

 Os poetas malditos



oh essas raparigas que perdem a cabeça por Sylvia Plath
porque foi capaz de fazer o que elas nunca farão
(não me refiro às metáforas atropeladas que escrevem sobre o medo
de se amarem um pouco a si mesmas
mas sim a suicidarem-se)

e esses rapazes que imitam Bukowski
(não me refiro a escreverem poemas descosidos sobre a sua própria miséria
mas sim a embebedarem-se com a certeza de que um dia
alguém os vai tirar da miséria)

e os Rimbauds de bairro baixo
que já que não podem traficar armas e deixar de escrever poemas
escrevem poemas e masturbam-se sonhando
com um cirurgião do deserto que lhes amputa uma perna

e quantos Lautréamonts de bairro alto
que adorariam ter um assomo de energia
para tirar a seringa do braço
e escrever com o próprio sangue algum verso assassino

oh os Maiakovskis
dando murraças à esquerda e à direita abrindo sobrolhos
e socando bochechas e recebendo em algum momento uma cabeçada,
com os narizes partidos e felizes, erguidos de pé para dizer a revolução

e os ternos tristes jovens que eugenizam, senam, herbertam,
ou fazem tintilar as moedas musicais de Pessoa
e escrevem ironias sentenciosas sem terem ainda perdido nada
e do seu tédio fazem melancolia fugitiva
num mundo de selfies
e estão convencidos de que a comida mais importante do dia
é um livro de poemas

invejo-os a todos por terem 
aquilo que já perdi para sempre:
a cega confiança de que escrever
é um modo de engrandecer a vida

a confiança cega de que viver
não é nada
se depois não nos serve
para cair de bruços
num poema.



(Versão minha; Horizonte de sucesos; Renacimiento, Sevilha, 2021, pp.115-116).

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Hindol Bhattacharya

O leitor



À distância de uma mão a existência às vezes ainda estremece.
A mente dentro da mente,
a escada até às águas-furtadas, nada há depois,
os habitantes da casa limitam-se a contaminar a água.
Olhas a lonjura, não é verdade?:
estou aqui, porém não o podes sentir,
limpas a casa, arrumas os livros, moves as cadeiras como se alguém tivesse regressado.



(Versão minha a partir da tradução de Subhro Bandopadhyay, revista por Violeta Medina, incluída em La pared de agua - Antología de poesía bengali contemporánea; Olifante, Saragoça, 2011, p. 229).

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Esteban Peicovich

 Marca de água



- Profissão?
- Sou poeta. Suponho.
- Nada de suponhos aqui. Põe-te direito. Não te apoies na parede. Olha o tribunal. Tens uma profissão estável?
- Pensava que essa era uma profissão estável.
- Mas, em termos gerais, qual é a tua especialidade?
- Sou poeta, poeta tradutor.
- Quem te reconheceu como poeta? Quem te colocou nas fileiras dos poetas?
- Ninguém. Quem me colocou nas fileiras da espécie humana?
- Estudaste para sê-lo?
- Para ser o quê?
- Poeta. Não podias ter prosseguido os teus estudos no instituto, onde poderias preparar-te e aprender?
- Nunca pensei que isso fosse questão de ensino e aprendizagem.
- Então?
- Acho que isso... vem de Deus.


(Diálogo que teve lugar na manhã de 18 de fevereiro de 1964 no tribunal do distrito de Leninegrado entre a juíza Irina Savaleva e o "parasita social e rufia imprestável" de 24 anos Joseph Brodsky, que 23 anos depois - 1987. aos 47 - obteve o Prémio Nobel da Literatura).




(Versão minha; Poemas plagiados; Germania, 2ª edição, Valência, 2001, p. 66).

terça-feira, 9 de novembro de 2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Diego Vaya

 O poeta fala da sua circuncisão



Despede-te, prepúcio, deste pénis tão
Por ti oprimido, com rigor tão grande;
Quanto a ti, freio, diz adeus à glande:
Já não serás do seu erguer o travão.
 
Por fim conhecendo a liberdade, nada retém
O meu membro, cuja potência se expande;
Antes, pénis coitado; agora porém brande
A sua alegria, esta que glorioso sustém.
 
Oh pénis circuncidado, enfim libertado,
Feito para a diversão e para gozar
Para bem do colectivo, e do particular!
 
Ditoso pénis, pénis assim sorridente,
Como rei recentemente coroado
Sem temor levantando a augusta frente!



(Versão minha, corrigida com a colaboração de um leitor atento e generoso; original algures por aqui)