quarta-feira, 19 de novembro de 2008

América 2008 (2)


(Paris, Texas - foto: jpb)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Harriet Monroe

O encontro



A parelha de bois e o automóvel
Ficaram frente a frente na extensa estrada incandescente.
A extensa estrada incandescente estreitava
Na curva da colina,
E lá em baixo estava o rio dançante e solar
Espumando sobre as rochas.

Os animais brandos e pacíficos deixaram-se ficar calmamente, ruminando o seu alimento.
O homem hirsuto e barbudo das montanhas,
Mais enferrujado que a sua carroça,
Não tirou os olhos do motorista orgulhoso.
A pequena rapariga esfarrapada
De cabelo corado pelo sol,
Sentada numa mochila dura, amarela e empoeirada
Olhou para os elegantes chapéus de viagem das senhoras,
E para os seus lenços de chifon
Que a leve brisa dedilhava.
O motorista orgulhoso encheu de ar a buzina,
Mas nada se moveu -
Excepto o espumante rio dançante e solar lá em baixo.

Então ele meneou a cabeça,
E virou o volante.
E lentamente, cuidadosamente,
O automóvel fez marcha-atrás na extensa estrada incandescente.

E os animais brandos e pacíficos levantaram os cascos,
E o homem hirsuto e barbudo agitou as suas rédeas,
E a esfarrapada pequena rapariga lançou o olhar para além da colina.
E a parelha de bois arrastou-se e balanceou-se pela extensa estrada incandescente.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização e selecção de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, p. 1).

sábado, 15 de novembro de 2008

América 2008 (1)

(Illinois - foto: jpb)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Günter Eich

Irmãos Grimm



Bosque de urtigas.
As crianças calcinadas
esperam por detrás das janelas da cave.
Os pais sairam
dizendo que voltariam em breve.

Primeiro chegou o lobo
conduzindo um cilindro,
a hiena quis pedir emprestada uma forquilha,
o escorpião veio pelo guia da TV.

Sem chamas
o bosque de urtigas arde por fora.
Os pais
sairam há muito tempo.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 89-90).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Dick Allen

O acompanhante



Sempre me preocupei contigo - o homem ou a mulher
sentados ao piano,
noite após noite recebendo apenas alguns aplausos
consentidos pelo cantor: uma salva de palmas, por favor,
para o meu acompanhante. Nos concertos,
enquanto vejo os teus dedos sobre as teclas,
e com que rapidez, com que excelência
mudas as páginas da pauta,
segues as notas do cantor, cobres as fífias do cantor,
preocupo-me com todas as vidas,
a maior parte das vidas
vividas na sombra de alguma celebridade impositiva;
mas depois a voz do cantor morre
e passam a existir apenas as tuas últimas notas ao piano,
de modo nenhum ressentidas,
encaminhando-nos para o fim, para essa sincera alegria
que brota em pequenas quantidades de uma audiência comovida
como súbitas flores silvestres oscilando sob uma chuva
de fortes aplausos. E eu ergo-me também,
aplaudindo o cantor, é certo, mas
julgo que aclamando-te também a ti
meio virado para nós, em equilíbrio no teu banco preto,
modesto, perfeitamente ensaiado,
continuando a tocar a parte que tornaste tua.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Manhã



Todos os dias o homem do leite vem às seis
Um pouco depois das sete a senhora do jornal surge coxeando
Às oito começo eu a andar em torno
Da mesa onde ainda estão a garrafa de vinho
da última noite e o copo, vazios.
E também aí permanecem as cartas
todas elas sinceramente minhas -
Levanta-te, dá umas voltas, lê
o Eclesiastes, onze
a luz é verdadeiramente doce
e uma coisa agradável para os olhos é contemplar o sol...



(versão minha da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 98).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Homens solteiros



Um colecciona pedras.
Outro adquire selos.
Um terceiro joga xadrez pelo correio
e outro aguarda e fica noites à espreita no parque.
Um estuda russo.
Outro lê Shakespeare.
Um escreve uma carta a seguir a outra,
e outro bebe vinho à noite,
doutro modo não haveria nada a referir.
Bebem, lêem, espreitam, adquirem,
estes homens sós nas suas noites.
Escrevem, estudam, jogam, coleccionam,
cada um por si depois de um dia de trabalho.
Um frequenta a opereta.
Outro ouve Bach.
Um guarda um segredo.
Como um cão preso a uma corrente,
corre pelas avenidas abaixo, noite após noite.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 98-99)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Friederike Mayröcker

Ostia receber-te-á



Eu estarei em Ostia
Estarei à tua espera
Estarei lá para te abraçar
Hei-de dar-te mãos em Ostia
Estarei lá
em Ostia
na foz do Tibre
esse rio ancestral

Eu não estarei em Ostia
Não estarei lá à tua espera
Não estarei lá para te abraçar
Não te darei as mãos em Ostia
Não estarei lá
em Ostia
na foz desse rio ancestral
o Tibre



(versão minha a partir da tradução inglesa de Reinhold Grimm reproduzida em The Faber Book of 20-th Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p.109).

domingo, 2 de novembro de 2008

Robert Walser

O meu quinquagésimo aniversário



Nasci em Abril numa pequena cidade
Cujos arredores são encantadores, e onde
Frequentei a escola; o vigário e o mestre-escola
Ficaram em parte satisfeitos comigo. Na devida altura
Fui simpaticamente integrado num banco a fim de aprender
O ofício devido ao qual depois visitei cidades como Basileia,
Estugarda e Zurique. Aí tomei conhecimento
Com a mais generosa e amável das mulheres
Que ora vivia na cidade, ora no campo,
Segundo o que lhe era mais conveniente,
E que conduziu a minha atenção para
Heinrich Heine, alguém que apenas pude
Apreciar completamente muito mais tarde.
O nome desta mulher somente por mim
Pode ser divulgado: mas por que deveria fazê-lo
Quando a discrição me faz feliz? Cargos importantes
Nos negócios desempenhei uma quantidade deles.
Com alacridade, por causa de um impulso
Só meu, abandonei um de modo a poder ter
E satisfazer outro; entretanto,
No sector industrial, escrevi poemas que apareceram
Mais tarde, talvez de maneira demasiadamente pródiga,
Na casa editora de Bruno Cassirer.
Por um período de mais ou menos sete anos vivi depois
Em Berlim, escrevendo prosa arduamente.
Mas quando, de forma cavalheiresca, os editores deixaram
De ter vontade de me conceder um adiantamento, regressei
À Suiça, que muitos amam
Pelas suas belas montanhas, para aqui
Persistir, sem mágoa, nas minhas tentativas poéticas.
E agora, a julgar por uns quantos cabelos grisalhos,
Cheguei à idade de cinquenta anos.




(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hamburguer, reproduzida em German Poetry: 1910-1975, antologia organizada e traduzida por Michael Hamburguer, Carcanet, Manchester, 1977, p. 27).

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Harold Pinter

Células cancerígenas


"Células cancerígenas são aquelas que se esqueceram de como morrer", enfermeira do Hospital Royal Marsden



Esqueceram-se de como morrer
E assim alastram sua vida assassina.

Eu e o meu tumor amavelmente lutamos.
Esperemos evitar uma morte dupla.

Preciso de ver morto o meu tumor
Um tumor que se esquece de morrer
Planeando ao invés o meu estertor.

Mas eu lembro-me de como morrer
Apesar de mortas minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
De tumores capazes de as tornar
Tão cegas e tontas quanto tinham sido
Antes do nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.

As negras células hão-de secar e morrer
Ou cantar alegremente e seguir o seu mister.
Noite e dia tão suave é o seu crescer,
Nunca se sabe, não o vão elas dizer.



(tradução inédita, datada de 8 de Maio de 2002, de Ricardo Castro Ferreira e Gil Santos Júnior, que assim colaboram com este blogue de poesia passada para português).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Günter Eich

Inventário



Isto é o meu gorro,
isto é o meu casaco,
eis o meu estojo de barbear
numa bolsa de linho.

Uma caneca de estanho:
o meu prato, o meu copo,
no metal
tracei o meu nome.

Tracei-o com este
precioso prego
que escondo
dos olhos gananciosos.

Na minha mochila há
um par de meias de lã
e outras coisas que
não revelo a ninguém,

isto serve-me de almofada
à noite sob a cabeça.
O cartão aqui está
entre mim e a terra.

O lápis de carvão é
o que mais amo:
de dia escreve por mim os versos
que pensei durante a noite.

Isto é o meu bloco de notas,
isto é a minha tela,
isto é a minha toalha,
isto é o meu fio.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Charlotte Melin, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 88).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sapardi Djoko Damonno

Quem és tu



Eu sou Adão
o que comeu a maçã;
Adão subitamente consciente de si mesmo,
assustado e envergonhado,
eu sou Adão, o que descobre
o bem e o mal, passando
de um pecado a outro;
Adão ininterruptamente desconfiado
de si mesmo,
escondendo o rosto.
Eu sou Adão espojando-me
na armadilha do espaço e do tempo
sem qualquer ajuda da realidade:
o paraíso perdido
por causa da minha suspeição
em relação à Presença.
Eu sou Adão
o que ouviu Deus dizer
adeus, Adão.



(versão minha a partir da tradução do indonésio para o inglês reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, pp. 422-423).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Chairil Anwar

Por mim



Quando a minha hora chegar
Ninguém vai chorar por mim,
E tu também não

Malditas sejam todas essas lágrimas!

Eu sou uma fera furiosa
Expulsa do rebanho

As balas podem furar-me a pele
Mas eu continuarei sem parar,

Arrastando para a frente as minhas chagas e a minha dor,
Atacando
Atacando
Até o sofrimento desaparecer

E não me vai custar nada

Eu quero viver mais mil anos



(versão minha, a partir da tradução do indonésio para o inglês de Burton Raffel reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, p. 427).

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eavan Boland

Neste momento



Um lugar algures.
Ao anoitecer.

Coisas estão à beira
de acontecer
longe dos olhares.

Estrelas e borboletas nocturnas.
E cascas enrolando-se em volta dos frutos.

Mas não ainda.

Uma árvore é negra.
Uma janela é amarela como manteiga.

Uma mulher baixa-se para receber uma criança
que correu para os seus braços
neste momento.

As estrelas irrompem.
As borboletas volteiam.
As maçãs amadurecem no escuro.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sábado, 18 de outubro de 2008

Reiner Kunze

Com o som em baixo



Então vieram
doze anos
em que não estive autorizado a publicar
diz o homem na rádio

Eu penso em X
e começo a contar



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ewald Osers reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 162).

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Volker Sielaff

Sem sono



A barulheira dos pássaros
nas árvores às três
e um quarto.

Cioran
queixou-se de insónias
a vida toda.

Atiro-me
às cegas
para os braços da manhã.

Nenhuma experiência
é comunicável.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20 th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, London, 2005, p. 203).

sábado, 11 de outubro de 2008

Inge Müller

Debaixo do entulho III



Quando fui buscar água
A casa desmoronou-se sobre mim
Nós amparámos a casa
Eu e o cão abandonado.
Não me perguntem como o conseguimos
Não me lembro.
Perguntem ao cão.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 203).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)

(...)


9
Ele fecha a porta
Não para aprisionar a sua alegria
... Mas para libertar o seu desgosto.



10
Um noticiário
Sobre uma mulher apaixonada
A ser morta,
Sobre um rapaz a ser raptado
E um polícia a crescer para dentro de um muro.



11
Venha o que vier acabará por envelhecer
Por isso leva tudo contigo menos esta loucura - prepara-te
Para continuares a ser um estranho...



12
Encontraram pessoas em sacas:
Uma sem a cabeça
Outra sem a língua ou as mãos
Outra esmagada
As restantes sem nomes.
Enlouqueceste? Por favor,
Não escrevas sobre estas coisas.


(...)


(mais quatro partes de um poema com trinta e cinco; versões minhas a partir da tradução para inglês de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 141-143).

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)



1
O meu tempo diz-me grosseiramente:
Tu não fazes parte.
Respondo grosseiramente:
Não faço parte,
Procuro compreender-te.
Agora sou uma sombra
Perdida na floresta
De um crânio.



2
Estou de pé, o muro é uma barreira -
A distância encurta-se, uma janela recua.
A luz do dia é fio
Cortado pelos meus pulmões para coser a noite.



3
Tudo o que eu disse sobre a minha vida e a minha morte
Retorna no silêncio
Da pedra debaixo da minha cabeça...



4
Estou cheio de contradições? É verdade.
Agora sou uma planta. Ontem, quando estava entre fogo e água
Era uma colheita.
Agora sou uma rosa e carvão vivo,
Agora sou o sol e a sombra
Não sou um deus.
Estou cheio de contradições? É verdade...



5
A lua usa sempre
Um elmo de pedra
Para combater as suas próprias sombras.



6
A porta da minha casa está fechada.
A escuridão é um cobertor:
Uma lua pálida chega com
Uma mão cheia de luz
As minhas palavras falham
Não traduzem a minha gratidão.



7
A matança mudou a forma da cidade - Esta pedra
É osso
Este fumo respiração de pessoas.



8
Nunca nos encontrámos,
Rejeição e exílio mantêm-nos separados.
As promessas morreram, o espaço morreu,
Morrermos sós tornou-se o nosso ponto de encontro.



(...)


(primeiras oito partes de um poema com trinta e cinco; versão minha, a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 135-139).

sábado, 4 de outubro de 2008

Thomas Lux

Um pequeno dente



À tua menina nasce um dente, depois o segundo,
e o quarto, e o quinto, depois ela quer carne
directamente do osso. Acaba

tudo: vai aprender certas palavras, apaixonar-se
por cretinos, imbecis, um qualquer falinhas
mansas a caminho da prisão. E tu,

a tua mulher, envelhecem, estão gastos,
e não se lastimam. Já viveste, amaste, os teus pés
doem. Anoitece. A tua filha está enorme.



(versão minha; original reproduzido aqui).

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Thomas Lux

Para ajudar o macaco a atravessar o rio,



o que ele tem
de fazer, nadando, para apanhar frutos e nozes,
para o ajudar
sento-me com a minha carabina numa plataforma
bem alta numa árvore, do mesmo lado do rio
em que se encontra o macaco esfomeado. Como é que isto o
ajuda? Quando ele se lança à água para chegar à outra margem
olho primeiro rio acima: os predadores movem-se mais depressa a favor
do que contra a corrente.
Se um crocodilo se prepara rio acima para comer o macaco
e uma anaconda rio abaixo arde
com a mesma ambição, elaboro
os cálculos, a álgebra necessária, os ângulos, as relações de velocidade
de macaco-crocodilo-e cobra, e se, se
se afigura provável que a anaconda ou o crocodilo
irão apanhar o macaco
antes de ele atingir a margem mais afastada do rio,
então aponto a minha carabina e disparo
uma, duas, três, talvez até quatro vezes para o rio,
mesmo a rasar as costas do macaco
para o apressar um pouco.
Deveria disparar sobre a cobra, o crocodilo?
Eles apenas desempenham os seus papéis na história,
mas o macaco, o macaco
tem duas mãozinhas que parecem as de uma criança,
e os mais espertos, numa jaula, podem ser ensinados a sorrir.



(versão minha; original e leitura do poeta aqui).

domingo, 28 de setembro de 2008

Carol Ann Duffy

Palavras, extensa noite



Algures do outro lado desta extensa noite
e da distância entre nós, estou a pensar em ti.
O meu espaço despede-se lentamente do espaço.

Isto é agradável. Ou devo riscar isto e dizer
que é triste? Numa certa linha do tempo canto
uma impossível canção de desejo que não podes escutar.

Lá lala lá. Entendes? Fecho os meus olhos e imagino
as montanhas negras que teria que atravessar
para te alcançar. Porque te amo e isto

é como é ou como é em palavras.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 141.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Primo Levi

25 Fevereiro 1944



Quem me dera acreditar em alguma coisa,
Alguma coisa para além da morte que te desfez.
Quem me dera poder dizer a força
Com que desejávamos então,
Já submersos,
Poder voltar a caminhar por uma vez
Livres sob o sol.



(versão minha; original e tradução para inglês de Eleonora Chiavetta reproduzidos em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 243.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Anna Swir

O mesmo interior



A caminho de tua casa para um festim de amor
vi na esquina de uma rua
uma velha pedinte.

Peguei na sua mão,
beijei a sua face delicada,
conversámos, ela tinha
o mesmo interior que eu,
do mesmo género,
senti-o instantaneamente
como um cão conhece pelo cheiro
outro cão.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Afinal, todos precisamos
dos que nos são próximos.

E depois eu já não sabia
porque caminhava para tua casa.



****



Sandálias de praia



Nadei para longe de mim mesma.
Não me chames.
Nada também para longe de ti mesmo.

Nadaremos para longe, abandonando os nossos corpos
na margem
como um par de sandálias de praia.



****



Não é fácil



Ponho algemas
e grilhões de ferro
e agora
corro.



(versões minhas, a partir das traduções para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzidas em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, pp. 73, 131 e 125.)

sábado, 20 de setembro de 2008

Stuart Kestenbaum

Oração pelos mortos



A neve suave começou tarde a noite passada e continuou
a noite toda enquanto eu dormia e podia ouvi-la entrar
ocasionalmente no meu sono, no qual sonhei que o meu irmão
estava de novo vivo e possuía a beleza da juventude, consciente
de que ele partiria de novo em breve e de que essa é a lição
da neve a cair e das sementes de morte que existem em tudo
o que nasce: estamos aqui por um momento
numa história que é mais longa do que nós e poucos de nós
recordam, o vento nasce em sítios
que desconhecemos, e cada momento contém ritmos
dentro de ritmos, e se descobres restos antigos
da tua própria escrita, ou uma velha fotografia,
podes não ter a certeza de que foste tu mesmo que tenhas sido tu,
não és tu agora, nem este momento que une o fogo
e as tuas mãos movem-se para cobrir o teu rosto num gesto
de dor e recordação.



(versão minha; o original, com o irmão do poeta e o 11 de Setembro de 2001 em fundo, pode ser lido aqui).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vagn Steen

$capitalista$



$uma$sociedade$
$capitalista$transforma$tudo$
$em$dinheiro$e$capitaliza$todos$
$os$serviços$tudo$é$expresso$
$monetariamente$e$exactamente$contabilizado$
$tudo$tem$um$aspecto$
$monetário$tudo$tem$
$um$sorriso$monetário$
$tudo$


(versão minha a partir da tradução para inglês feita pelo poeta, reproduzida em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 249.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Cicely Herbert

Tudo muda

depois de Brecht, "Alles wandelt sich"



Tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer
mas o que aconteceu aconteceu,
e os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados.

O que aconteceu aconteceu.
Os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados, mas
tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 89.)

domingo, 7 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Como me transformei num artigo

 
Eles mataram-me uma vez 
Agora exibem o meu rosto infinitas vezes



 **** 


  Fim de um debate com um carcereiro 


Do postigo da minha estreita cela 
posso avistar árvores a sorrir-me, 
telhados repletos com a minha gente, 
janelas chorando e rezando por mim. 
Do postigo da minha estreita cela 
posso avistar a tua imensa cela. 



 **** 


  Eternidade 


 Folhas caem de quando em quando, 
No entanto o tronco do carvalho...    



**** 


Bilhetes de viagem 


No dia em que me matar 
O meu assassino encontrará no meu bolso 
Bilhetes de viagem 
Para a paz, 
Para os campos e a chuva, 
Para a consciência do povo. 

Peço-te: não os desperdices, por favor. 
Suplico-te, a ti que me mataste - Viaja.



(versões minhas a partir das traduções inglesas de Abdullah al-Udhari reproduzidas em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, pp. 71, 77, 79 e 59).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Confissão ao meio-dia



Plantei uma árvore
Desprezei o fruto
Queimei o tronco como lenha
Fiz um alaúde
E toquei uma melodia

Quebrei o alaúde
Perdi o fruto
Perdi a melodia
Chorei sobre a árvore



(versão minha a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, p. 57).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Javier Salvago

Último retrato da juventude



Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.



(versão minha; poema do livro Los mejores años, 1991; original aqui).