O mundo não é um lugar agradável para se estar
o mundo não é um lugar agradável
para se estar sem
alguém para defendermos ou que nos defenda
um rio só deterá
o seu fluir se
uma corrente lá estiver
para o receber
um oceano nunca escarnecerá
se as nuvens não estiverem lá
para lhe beijarem as lágrimas
o mundo não é
um lugar agradável para se estar sem
alguém
[17 fev 72]
(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, p. 72).
sábado, 10 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Jack Agüeros
Salmo pela distribuição
Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.
Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.
(versão minha; original reproduzido algures por aqui).
Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.
Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.
(versão minha; original reproduzido algures por aqui).
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Jack Agüeros
Salmo pelo bacalhau
Senhor,
agradecemos-te pelo bacalhau,
agradecemos-te pelo bacalhau salgado
e agradecemos-te pelo bacalhau sem espinhas
e agradecemos-te pelo bacalhau
que é tão dócil que
nada em molho de tomate tão ditosamente
como nada em azeite.
Senhor,
agradecemos-te especialmente porque o bacalhau
não nada perto das costas
de Porto Rico.
Agradecemos-te por ele ir tão bem
com banana verde
rodelas de cebola e ovos mexidos.
E, Senhor,
porque é um peixe
agradecemos-te por o deixares vir a voar
até Porto Rico, agradecemos-te
por o deixares vir de barco
até aos nossos portos, agradecemos-te
por o deixares vir a nado até às nossas bocas tão felizes.
Senhor,
agradecemos-te pelo bacalhau,
agradecemos-te pelo bacalhau salgado
e agradecemos-te pelo bacalhau sem espinhas
e agradecemos-te pelo bacalhau
que é tão dócil que
nada em molho de tomate tão ditosamente
como nada em azeite.
Senhor,
agradecemos-te especialmente porque o bacalhau
não nada perto das costas
de Porto Rico.
Agradecemos-te por ele ir tão bem
com banana verde
rodelas de cebola e ovos mexidos.
E, Senhor,
porque é um peixe
agradecemos-te por o deixares vir a voar
até Porto Rico, agradecemos-te
por o deixares vir de barco
até aos nossos portos, agradecemos-te
por o deixares vir a nado até às nossas bocas tão felizes.
(versão minha; original reproduzido em El coro - a chorus of latino and latina poetry, selecção e organização de Martín Espada, 1997, University of Massachusets Press, Amherst, p. 8).
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Jan Polkowski
Não escrevas nada...
Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.
Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.
(versão minha a partir da tradução de Donald Pirie reproduzida em Young poets of a new Poland, introdução e traduções de D. Pirie, Forest Books, Londres, 1993, p. 82.)
domingo, 20 de setembro de 2009
Margaret Atwood
Eles jantam fora
Nos restaurantes discutimos
qual de nós pagará o teu funeral
ainda que a verdadeira pergunta seja
se farei ou não de ti um ser imortal.
Neste momento só eu
posso fazê-lo e assim
levanto o garfo mágico
sobre o prato de carne e arroz frito
e cravo-o no teu coração.
Há um pequeno estalido, um zumbido
e da tua própria cabeça fendida
emerges incandescente;
o céu abre-se
uma voz canta O Amor É Uma
Coisa Esplendorosa
circulas suspenso por cima da cidade
com um fato azul e uma capa vermelha,
os teus olhos brilhando em uníssono.
Os outros comensais olham-te
alguns com temor, outros só com aborrecimento:
não conseguem decidir se és uma nova arma
ou apenas outro anúncio.
Quanto a mim, continuo a comer;
gostava mais de ti como eras,
mas tu sempre foste ambicioso.
Nos restaurantes discutimos
qual de nós pagará o teu funeral
ainda que a verdadeira pergunta seja
se farei ou não de ti um ser imortal.
Neste momento só eu
posso fazê-lo e assim
levanto o garfo mágico
sobre o prato de carne e arroz frito
e cravo-o no teu coração.
Há um pequeno estalido, um zumbido
e da tua própria cabeça fendida
emerges incandescente;
o céu abre-se
uma voz canta O Amor É Uma
Coisa Esplendorosa
circulas suspenso por cima da cidade
com um fato azul e uma capa vermelha,
os teus olhos brilhando em uníssono.
Os outros comensais olham-te
alguns com temor, outros só com aborrecimento:
não conseguem decidir se és uma nova arma
ou apenas outro anúncio.
Quanto a mim, continuo a comer;
gostava mais de ti como eras,
mas tu sempre foste ambicioso.
(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Pilar Somacarrera Íñigo, reproduzidos em Juegos de poder, tradução, introdução e notas de P. S. Íñigo, Hiperión, Madrid, 2000, p. 33).
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Óscar Hahn
Numa estação de Metro
Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro
e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos
e a perderam para sempre entre a multidão
Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações
e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis
E se calhar o amor não é mais do que isso:
uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro
e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome
Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro
e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos
e a perderam para sempre entre a multidão
Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações
e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis
E se calhar o amor não é mais do que isso:
uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro
e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome
(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 95).
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Bronislaw Maj
Nunca escreverei um poema...
Nunca escreverei um poema longo: tudo
o que encontrei aqui impede-me
de dizer mentiras: isto existe entre
duas golfadas de ar, apenas num
relance, num só aprisionamento do coração. E agora
estou só, e o que está aqui comigo
chega apenas para uma dúzia (mais ou menos)
de pequenos versos, um poema tão breve como o instante de vida
de uma borboleta das couves, ou o fulgor de luz
na crista de uma onda,
de um ser humano, ou de uma catedral. Uma dúzia (mais
ou menos) de versos depois,
e o que existe entre eles: a perpétua
fulgurância da luz, a eternidade da vida de uma borboleta
e a humanidade que transcende
a morte.
Nunca escreverei um poema longo: tudo
o que encontrei aqui impede-me
de dizer mentiras: isto existe entre
duas golfadas de ar, apenas num
relance, num só aprisionamento do coração. E agora
estou só, e o que está aqui comigo
chega apenas para uma dúzia (mais ou menos)
de pequenos versos, um poema tão breve como o instante de vida
de uma borboleta das couves, ou o fulgor de luz
na crista de uma onda,
de um ser humano, ou de uma catedral. Uma dúzia (mais
ou menos) de versos depois,
e o que existe entre eles: a perpétua
fulgurância da luz, a eternidade da vida de uma borboleta
e a humanidade que transcende
a morte.
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 61).
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Óscar Hahn
Retrato de família iraquiana
O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento
O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento
(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 46).
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Vladimíra Cerepková
Para Eva O.
Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore
Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore
(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král reproduzida em Anthologie de la poésie tchèque contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, p. 266).
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Óscar Hahn
Nunca se sabe
Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve
Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve
(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, Prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 43).
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Pablo Garcia Casado
Bloomberg
... TPI 3,86 +5,75. União FENOSA, 12, 42 +2,48. Valleformoso 9,15 + 1,10%. Zeltia 6,52 +2,19%. O euro tem estado a subir na última hora depois de ter sido fortemente desvalorizado devido aos avanços das tropas da coligação anglo-americana. Tony Blair opõe-se a que a Síria seja o próximo país a ser alvo de bombardeamentos na guerra. O Iraque assegura que derrubou dois caças bombardeiros americanos, um A-10 e um F-15, em Bagdade, segundo um porta-voz da televisão oficial iraquiana. George Bush chega à Irlanda do Norte para se reunir com Blair e conversar sobre a reconstrução do Iraque. Um dos responsáveis do Pentágono, Paul Wolfowitz, afirma que serão necessários pelo menos seis meses até que se possa organizar no Iraque um governo depois da queda de Saddam. A GUERRA NO IRAQUE. O jornalista espanhol Julio Anguita Parrado foi morto durante um ataque iraniano contra um centro de comunicações dos Estados Unidos nos arredores de Bagdade. O meu filho mais velho, de 32 anos, acaba de morrer no cumprimento das suas obrigações de correspondente de guerra. Há 20 dias esteve comigo e disse-me que queria estar na linha da frente, declarou o seu pai, Julio Anguita. A Cruz Vermelha adverte que as condições dos hospitais em Bagdade são terríveis. Peritos americanos em armamento químico e biológico acreditam ter encontrado um armazém iraquiano de mísseis com substâncias que poderão ser gás mostarda e gás sarin. O quartel general americano afirma que o governo do Iraque ainda possui alguma capacidade militar. Colin Powell declara que Washington enviará para o Iraque uma equipa preparada para colaborar na formação de um governo provisório no país. O número de prisioneiros iraquianos eleva-se a mais de 7.000, segundo o general Richard Myers. Geof Hoon disse desconhecer o paradeiro de Saddam e dos seus filhos. O IBEX 35 está a valorizar-se em 2,06%, pelo que se situa nos 6.45,20 pontos. Acerinox 35,00 +1,39%. Amadeus 4,59 +3,85...
(versão minha; original reproduzido em Poesía Pasión - doce jóvenes poetas españoles, selecção, introdução e notas de Eduardo Moga, Libros del Innombrable, Saragoça, 2004, pp. 147-148.)
terça-feira, 28 de julho de 2009
Jan Erik Vold
O mistério básico do capitalismo
O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel
durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões
como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade
num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber
35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?
O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel
durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões
como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade
num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber
35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?
(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).
domingo, 26 de julho de 2009
Aaron Zeitlin
As crianças estão sempre a morrer
As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.
As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."
As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.
As crianças desaparecem.
As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.
As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."
As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.
As crianças desaparecem.
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthologt of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 128).
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Aaron Zeitlin
Texto
Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.
Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.
Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.
Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.
Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.
Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthology of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 126).
terça-feira, 21 de julho de 2009
Jean Nordhaus
Eu estava sempre de partida
Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.
Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela
encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte
não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.
(versão minha; original reproduzido aqui).
Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.
Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela
encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte
não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.
(versão minha; original reproduzido aqui).
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Amir Gilboa
Sentai-vos, amigos...
Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.
Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.
Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.
Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.
(versão minha, a partir da tradução do espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa MArtínez, Hipérión, 2ª edição, Madrid, 2001, p. 37).
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Marina Boroditskaya
Pobre compositor
Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.
Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).
Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.
Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).
(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).
sábado, 4 de julho de 2009
Yusef Komunyakaa
Terra do Nunca
Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses
dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso
por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo
seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa
os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.
A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor
Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer
sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.
Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.
Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes
que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.
Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses
dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso
por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo
seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa
os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.
A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor
Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer
sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.
Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.
Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes
que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.
(versão minha; original reproduzido em Real things - an anthology of popular culture in american poetry, selecção e organização de Jim Elledge e Susan Swartwout, Indiana University Press, Bloomington, 1999, pp. 150-151).
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Belén Reyes
Sou poeta
Sou poeta
E nunca levo escolta.
Sou poeta
E nunca levo escolta.
(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, p.249).
domingo, 21 de junho de 2009
José Manuel Arango
Os que têm por ofício lavar as ruas
Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue
E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem
Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue
E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem
(versão minha; original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Miroslav Holub
Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo
Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.
O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:
Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.
Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.
O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:
Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.
(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)
terça-feira, 16 de junho de 2009
Leopold Staff
Fala
Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.
Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Adam Czerniawski reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 62).
domingo, 14 de junho de 2009
Brenda Ascoz
se sentes que não existes
se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca
se tu não existes,
a tua solidão muito menos.
se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca
se tu não existes,
a tua solidão muito menos.
(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 131).
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Roxana Popelka
Acerca da verdade, acerca da felicidade
Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:
enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -
que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.
Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.
Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.
Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."
E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.
Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.
E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.
E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.
Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?
Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.
E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.
Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:
enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -
que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.
Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.
Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.
Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."
E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.
Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.
E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.
E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.
Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?
Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.
E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.
(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 210-213).
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Carol Ann Duffy
Namorada
Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.
Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.
Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.
Tento ser verdadeira.
Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.
Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.
Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.
Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.
Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.
Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.
Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.
Tento ser verdadeira.
Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.
Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.
Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.
Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.
(versão minha; original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Almudena Vidorreta Torres
Outro lugar
Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.
Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.
Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.
Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.
Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.
Noutro lugar,
não neste.
Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.
Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.
Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.
Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.
Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.
Noutro lugar,
não neste.
(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 21.)
sábado, 6 de junho de 2009
Kevin Griffith
Girando
Seguro o meu filho de dois anos
por debaixo dos braços e faço-o girar.
Os seus pés afastam-se de mim
e o dia desfaz-se numa mancha.
Tudo o que possuo voa pelos ares:
brinquedos de quintal, balde de areia, pá e ancinho,
garagem, casa,
e, por fim, os anos da minha vida.
Quando paramos, o meu filho é um adulto
e eu envelheci. Voltamos
a vacilar nos braços um do outro
uma última vez, dois amigos extraviados
cambaleando por causa da bebida,
recordando os bons velhos tempos.
(versão minha; original reproduzido aqui).
Seguro o meu filho de dois anos
por debaixo dos braços e faço-o girar.
Os seus pés afastam-se de mim
e o dia desfaz-se numa mancha.
Tudo o que possuo voa pelos ares:
brinquedos de quintal, balde de areia, pá e ancinho,
garagem, casa,
e, por fim, os anos da minha vida.
Quando paramos, o meu filho é um adulto
e eu envelheci. Voltamos
a vacilar nos braços um do outro
uma última vez, dois amigos extraviados
cambaleando por causa da bebida,
recordando os bons velhos tempos.
(versão minha; original reproduzido aqui).
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Wendy Cope
Poema composto em Santa Bárbara
Os poetas falam. Falam muito.
Falam de T.S. Eliot.
Um é contra. Outro a favor.
Que pensamentos profundos, os seus! Quanta sabedoria!
São felizes. Uma cigarra canta.
Nós, mulheres, falamos de outras coisas.
(versão minha; original reproduzido aqui).
Os poetas falam. Falam muito.
Falam de T.S. Eliot.
Um é contra. Outro a favor.
Que pensamentos profundos, os seus! Quanta sabedoria!
São felizes. Uma cigarra canta.
Nós, mulheres, falamos de outras coisas.
(versão minha; original reproduzido aqui).
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Kevin Griffith
Dobrando os quarenta
De tempos a tempos parece que há um pequeno planeta
dentro de mim. E neste planeta
há uma imensidade de pequenas guerras, porém nenhuma
suficientemente grande para fazer uma verdadeira diferença.
As maiores potências - o espírito e o coração - declararam
tréguas por agora. Se houve um líder neste planeta
ninguém se lembra dele. Todas
as decisões são tomadas em conjunto.
No entanto há algumas imagens do velho ditador -
como parecia cheio de juventude no seu grande cavalo,
como brilhavam os seus olhos.
Estava preparado para conquistar o mundo.
(versão minha; original reproduzido aqui).
De tempos a tempos parece que há um pequeno planeta
dentro de mim. E neste planeta
há uma imensidade de pequenas guerras, porém nenhuma
suficientemente grande para fazer uma verdadeira diferença.
As maiores potências - o espírito e o coração - declararam
tréguas por agora. Se houve um líder neste planeta
ninguém se lembra dele. Todas
as decisões são tomadas em conjunto.
No entanto há algumas imagens do velho ditador -
como parecia cheio de juventude no seu grande cavalo,
como brilhavam os seus olhos.
Estava preparado para conquistar o mundo.
(versão minha; original reproduzido aqui).
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Carmen Ruiz Fleta
A mulher mais feia do mundo
A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.
A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.
(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 87).
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