quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

4 anos a tombar do trapézio (1)

Comentários e mensagens de leitores (muito obrigado a todos):

Amélia:
"Bastará dizer-lhe que o seu blogue é um dos meus preferidos que leio diariamente? Gosto das suas traduções, ainda que tantas vezes não possa confrontá-las com os originais. E gosto de tantos poetas que desconhecia e me tem dado a conhecer. Obrigada."

Neusa:
"Tantos poemas que li, imagens que vi, revelações, com os quais me identifiquei. Obrigada."

Carla Diacov:
"Parabéns e muitos posts de vida!!!"

Daniel Ferreira:
"Parabéns pelos quatro anos de vida e pela lufada de ar fresco que, no que toca à tradução, trouxeste à poesia portuguesa na internet. Muito pessoalmente e para não fechar a questão ao universo virtual, pela machadada no classicismo e na seriedade sisuda divulgada pelo universo literário português até então. Ou seja, obrigado por acabares com o autismo e pela variedade enquanto causa da consequente qualidade, pela possibilidade de poder conhecer outros autores e outro tipo de registos, abriste sem dúvida novos horizontes. Por tudo isso, muito mais e por o que está para vir: continuação e bons tombos. ;)
O mais sincero dos abraços."

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

4 anos a tombar do trapézio

Caríssimos leitores,

Este blogue faz 4 anos no próximo dia 4 de fevereiro. Gostava de comemorar a data convosco e, por isso, convido-vos a enviarem-me comentários sobre a tradução de poesia ou sobre este blogue, listas de poemas e de poetas preferidos, sugestões de leitura, críticas, traduções, desenhos, fotografias, em suma, o que entenderem que faz sentido publicar num blogue com as características deste. Tenciono publicar o que me enviarem para a caixa do correio ao longo da presente e da próxima semana.

Obrigado.

E um abraço para todos,

LP.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Angel Erro

LXXV



Chegará um dia
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.

Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?



(versão minha a partir da tradução para espanhol do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jovénes poetas vascos, selecção e organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea,  edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 131).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Claes Andersson

Não se preocupam com os meios



Tem cuidado com aquele que diz representar
a voz de muitos.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que diz que fala
apenas em seu nome.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que se limita a consentir
com a cabeça.
Amanhã o consentimento pode afectar-te a ti.

Tem cuidado com aqueles que só querem viver
a sua vida em paz.
Não se preocupam com os meios.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 180).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eila Kivikkaho

Ocultar o mais íntimo



Como um insecto
imóvel no ramo
quero semear
algo que ninguém
procure, veja, persiga.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 97).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lisel Mueller

Às vezes, quando a luz



Às vezes, quando a luz cria ângulos inesperados
e te empurra de novo para a infância

e tu passas perto de uma mansão decadente
escondida por completo por salgueiros centenários

ou junto de um convento abandonado e guardado por abetos
e uma linha de pinheiros gigantes alinhados

percebes mais uma vez que por trás desse muro,
debaixo da crespa cabeleira dos salgueiros,

continua a existir um segredo
tão maravilhoso e perigoso

que se rastejares e o descobrires
podes morrer, ou então ser feliz para todo o sempre.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Angel Erro

X



Tudo está dito, desde há muito.
Que tudo está dito já está dito.
Tudo está dito, pois, sem emenda.
Tudo está dito, mas não por mim.



(Versão minha da tradução para espanhol do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 125).

domingo, 15 de janeiro de 2012

Castillo Suarez

Um romance tem demasiadas palavras



Um romance tem demasiadas palavras. Por isso escrevo poemas. Como se fazer poemas não fosse suficiente, perguntam-me por que o faço. Escrevo porque minto. Porque sou mentirosa e porque exagero as coisas. Se não exagerasse as coisas, ninguém acreditaria em mim.

Os poemas perdem-se sem trégua, perdem-se dia após dia porque ninguém os guarda, porque ninguém os escreve. Eu sou uma caçadora de poemas; não sou uma escritora.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol da autora reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüistica Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 89).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Igor Estankona

A serpente



É por isso que cheguei a casa antes do previsto
e por isso subi as escadas
sigiloso
e é por isso que abri a porta
com a cópia da chave
que julgavas que eu não tinha
é por isso que viraste as costas
e me escapaste dos braços
com a destreza das trutas
é por isso que te passei uma rasteira
e caímos
os dois
ao chão
é por isso
que não fiz caso
quando entre risos me insultaste
é por isso que te desabotoei
os botões das calças
é por isso
que rocei os teus lábios
e tu abriste a boca
como se vão abrindo enquanto ardem
as rosas ou as bolas de papel
é por isso que apaguei a luz
é por isso que fiz tudo tão depressa:
para que não tivesses tempo
de preparar a tua defesa.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol de Jon Kortazar reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p.p. 97-99).

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Castillo Suarez

Toda a dor do mundo



As coisas que não fazem parte da tua experiência são quase invisíveis. Mais ainda, quando algo de novo se incorpora na tua realidade é como se não houvesse mais nada em redor. Mas é impossível tentar compreender toda a dor do mundo. É impossível; tanto como amar duas vezes a mesma pessoa.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol da autora reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüistica Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 93).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Artur Miedzyrzecki

O que é que os politólogos sabem?



O que é que os politólogos sabem?
Os politólogos sabem quais são as últimas tendências
Qual o estado actual da economia
A história das doutrinas

O que é que os politólogos não sabem?
Os politólogos não sabem nada de desespero
Não conhecem o jogo que consiste
Em ficar fora de jogo

Não lhes ocorre
Que ninguém sabe quando
É que as mudanças irrevogáveis podem acontecer
Por exemplo um banco de gelo que se parte de repente

E sabe-se como os recursos naturais
Incluem o conhecimento das leis veneráveis
A capacidade de surpreender
O sentido de humor



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Stanilslaw Baranczak e Clara Cavanagh reproduzida em The poetry of survival - Post-war poets of central and eastern europe, organzação de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª edição, Londres, 1993, p. 194).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Karmelo C. Iribarren

Ainda ontem



Parece que foi
ontem
que ainda sonhávamos
com a revolução,

e hoje estamos assim:
                                  balofos,
meio carecas, cínicos,
e com problemas
de colestrol.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 215).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eila Kivikkaho

Na noite



Oiço - como poderia não o ouvir -:
o pássaro, o pássaro dos pássaros.
A árvore e a erva querem dormir.
Acende-se uma estrela, desperta o coração
e canta o pássaro dos pássaros.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 96).

sábado, 31 de dezembro de 2011

Robert Duncan (1919-1988)

Entre os meus amigos



Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.



(Versão minha, recuperada, feita com a colaboração de C. e de C., e dedicada a J., a P.B. e a todos os leitores deste blogue; original reproduzido em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 44).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feng Menglong (1574-1646)

O amor


Segundo a melodia Guazhier



Quando estás irritada comigo,
parece que te ris para mim.
Quando me chegas a roupa ao pelo,
aguento e aprecio o teu ar de coquete.
Quando armas confusão por minha causa,
oiço-te a chamares-me querido.
Gosto tanto da tua voz quando me gritas,
e tanto dos teus braços quando me agarras.
Pareces-me linda quando estás contente,
mas ficas ainda mais bela
quando te mostras furiosa ou ressentida.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 152).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Jerzy Ficowski

["nada fiz para salvar..."]



nada fiz para salvar
uma só vida

nada fiz para impedir
uma bala que fosse

e ando por cemitérios
que não existem
procuro palavras
que não existem
corro

para ajudar em sítios onde ninguém chamou
para salvar depois das coisas acontecerem

mesmo que esteja atrasado
eu quero chegar a tempo



(Versão minha a paritr da tradução inglesa de Keith Bosley e Krystyna Wandycs reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 131-132).

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ghani Khan

Pergunta ou resposta



Responde, mullah, responde!
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
É uma consumação do amor ou uma obsessão doentia?
Repouso ou agitação?
A vida é um imã ou uma amante?
O púlpito ou a sala do trono?
Ou, num mundo voluntarioso,
a ilusão de um sonho encantado?
Um momento para arrebatar a luz
a partir da escuridão do universo?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é o Faraó e a ousadia -
ou a sua loucura e euforia?
É o trono de ouro de Nimrod,
ou a sinistra morte de Mansur?
Adorável, cheia de sorrisos,
ou Yazid, inchado de orgulho?
É a primavera, ou a rosa,
meio escondida do olhar?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
Um copo de vinho intoxicante,
ou a tigela partida de um mendigo?
O rosto aturdido de Khyyana,
ou o sagaz semblante do tolo Bahlol?
Uma rosa de jardim salpicada de cores,
ou a garantia de espinhos acutilantes?
É uma fuga ou um voo?
Um voo a partir de si próprio?
É uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é beleza que se propaga -
ou beleza que se extingue?
Música que lamenta o seu próprio fracasso,
ou uma chama ardente?
Há ainda um lugar de repouso no caminho,
ou apenas respiração em busca de outra respiração?
A vida é os baldes de uma nora de tirar água,
uns vazios, outros cheios?
Ou luz que se expande eternamente,
inconsciente da sua glória?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Sher Zaman Taizi e de Revez Sheikh reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Arif; revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign e Londres, 2010, pp. 96-97)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cristina Peri Rossi

Projectos



Poderíamos ter um filho
e levá-lo ao jardim zoológico aos domingos.
Poderíamos esperá-lo
à saída do colégio.
Ele iria descobrindo
na procissão das nuvens
toda a pré-história.
Poderíamos com ele fazer anos.

Mas não gostaria que ao chegar à puberdade
um fascista de merda lhe desse um tiro.



(Versão minha; poema incluído em Poesía reunida, Lumen, Barcelona, 2ª edição, 2009, p. 221).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Karmelo C. Iribarren

O resto é conversa

Para os Legorburu Arzamendi



A minha mulher e a minha filha,
estas paredes e estes livros,
um punhado de amigos
que me querem bem
- e dos quais gosto de verdade -,
as ondas do cantábrico
em setembro,
três bares, quatro
contando com o clandestino da praia.
Ainda que saiba que deixo
algumas coisas, posso dizer
que, a ser algo, será esta a minha pátria.
O resto é conversa.



(Versão minha; poema reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilla, 2005, p. 185).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Li Yanniam (? - 87 a. C.)

A minha canção


No norte há uma jovem muito bela,
uma beleza sem igual.
Um olhar seu é suficiente
para conquistar a cidade.
Um outro olhar basta
para dominar um reino.
Eu preferia tê-la
a subjugar uma capital
ou todo um império.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 36).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Esclarecimento & agradecimento aos leitores que escrevem comentários neste blogue

Caríssimos leitores,

Por motivos alheios à minha vontade, não tenho conseguido responder, nos últimos tempos, aos diversos comentários que têm deixado na caixa de comentários. Não sei porquê, mas o blogger não mo tem permitido. Espero que o problema se resolva em breve, desejando, também, que possam continuar a ler e a comentar os poemas que aqui vão sendo passados para português. Agradeço - a todos - as palavras de simpatia e incentivo que me têm dirigido.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Natan Zach

Contra a decisão de partir



O meu alfaiate é contra a decisão de partir.
É por isso, disse
ele, que não se vai embora;
não quer separar-se
da sua única filha. É definitivamente
contra a ideia de partir.

Uma vez partiu - afastou-se da mulher
e depois disso
nunca mais a viu (Auschwitz).
Partiu - afastou-se
das suas três irmãs e
nunca mais tomou
conta delas (Buchenwald).
Partiu uma outra vez - e afastou-se da mãe (o pai
morreu de velho). Agora
é contra a decisão de partir.

Ele era o companheiro
mais chegado do meu pai em Berlim.
Viveram
bons tempos
nessa Berlim. O tempo passou. Agora
nunca mais se vai embora. É
o mais definitivamente possível
(o meu pai morreu entretanto)
contra a ideia de partir.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Peter Everwine e Shulamit Yasny-Starkman reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 295-296).

domingo, 20 de novembro de 2011

Tai Fu Ku (século XIII)

[Tantos são os que...]



Tantos são os que correm atrás da riqueza sem descanso.
Toda a noite fazem contas, durante o dia galopam.
Passam a vida num frenesim constante, cheio de fadigas.
Não sabem que sobre o tecto das suas casas o céu é azul.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Rafael Alberti e María Teresa León reproduzida em Poesía china, Visor, Madrid, 2003 - 1ª edição: 1960 -, p. 70).

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Cristina Peri Rossi

XI



Nunca nenhuma palavra
nenhum discurso
- nem Freud, nem Martí -
serviu para deter a mão
a máquina
do torturador.
Mas quando uma palavra escrita
na margem na página na parede
serve de alívio à dor de um torturado,
a literatura faz sentido.



(Versão minha; poema reproduzido em Poesía reunida, Lumen, 2ª edição, Barcelona, 2009, p. 300).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sheikh Ayaz

Escreve



"Já alguma vez estiveste numa guerra? Viste
corpos a cairem na poeira?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já tiveste os lábios de uma noiva a tocar
como uma flauta os teus lábios?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já alguma vez, depois de te embriagares, fechaste os olhos
e sentiste o rio vacilar e vibrar
e deslizaste sobre ele como um cisne?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já alguma vez estiveste quase a alcançar o que querias
e, de repente, tudo te fugiu,
silenciando-te o coração como um tambor?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso. Não escrevas só
sobre o que ouviste. Não escrevas
só a partir do que os outros escreveram."



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Asif Farrukhi e Shah Mohammed Pirzada reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Asif e revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign/Londres, 2010, pp. 116-117).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Po Chu Yi (772-846)

Os nobres e os seus cavalos enfartados



O seu ar altaneiro enche o caminho,
as suas montadas e corceis reluzem por entre o pó.
- Quem são estas gentes? - pergunto.
- São os nobres da Corte.
Cinturões vermelhos para os ministros,
barretes de franjas de cor púrpura para os generais.
Vão para o festim do exército
e os seus cavalos correm como as nuvens.
Nove qualidades de vinho transbordam das suas taças,
oito manjares requintados - colhidos à terra e ao mar - serão servidos.
Descascam-se as laranjas do Lago Tung T'ing,
cozinha-se o pescado do Lago Celeste.
Cheios, estão contentes;
ébrios, o seu orgulho aumenta.
Neste mesmo ano a seca varre o sul do rio.
Em Ch'u Chon homens comem outros homens.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Rafael Alberti e María Teresa León reproduzida em Poesía china, Visor, Madrid, 2003 (1ª ed.: 1960), p. 127).

terça-feira, 8 de novembro de 2011

W. S. Merwin

Exercício



Primeiro esquece que horas são
por uma hora
faz isto regularmente todos os dias

depois esquece em que dia da semana estás
faz isto regularmente por uma semana
depois esquece em que país estás
e pratica esta acção acompanhado
por uma semana
depois faz as duas coisas juntas
por uma semana
com tão poucas interrupções quanto possível

em seguida esquece como se adiciona
ou como se subtrai
tanto faz
podes substituir uma acção por outra
passada uma semana
ambas te ajudarão
mais tarde
a esquecer como contar

esquece como contar
a começar pela tua própria idade
a começar por como se conta para trás
a começar pelos números pares
a começar pelos números romanos

a começar pelas fracções de números romanos
a começar pelo antigo calendário
seguido do velho alfabeto
seguido do alfabeto
até ser tudo contínuo outra vez

passa então ao esquecimento dos elementos
a começar pela água
logo depois a terra
a crescer em fogo

esquece o fogo



(Versão de António Ladeira; poema de Migration: New & Selected poems, Copper Canyon P. Washington, 2005, p. 204).

sábado, 5 de novembro de 2011

Milan Rúfus

Fenos



Tosquiam uma ovelha.
O esponjoso, o brando
vai caindo, e nuvenzinhas leves,
que uma criança levantaria com os dedos,
aterram ali.

A ovelha permanece tranquila.
Tem as patas atadas com o cordel do caminho
e sabe que tem de ser.

Céu sobre nós,
sê paciente e alumia um pouco.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Alejandro Hermida de Blas reproduzida em Campanas, La Poesía, señor hidalgo, edição bilingue eslovaco-espanhol, Barcelona, 2003, p, 27).

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

W. S. Merwin

Conto



Muitos invernos depois o musgo
encontra o pó da madeira cascas esmagadas de árvore
e diz velho amigo
velho amigo



(Versão de António Ladeira; poema do livro Migration: New & Selected Poems, Copper Canyon P, Washington, 2005, p. 175).

domingo, 30 de outubro de 2011

Edward Kocbek

Dialéctica



O construtor arrasa casas,
o médico promove a morte
e o comandante dos bombeiros
é o chefe secreto dos pirómanos,
eis o que nos mostra a dialéctica inteligente -
e a bíblia diz-nos algo de parecido:
quanto mais se sobe maior é a queda
e o último será o primeiro.

O vizinho tem uma espingarda carregada em casa,
um microfone debaixo da cama
e a filha é uma informadora.
Com um ataque o vizinho vai-se abaixo,
a ligação do microfone falha,
a filha acaba por confessar.
Toda a gente se disfarça de cordeiro
quando se esgueira da caverna do ciclope.

Vinda da tenda do circo
ouço na noite música desafinada,
os sonâmbulos caminham no arame
oscilando com os seus braços indecisos,
cá de baixo os amigos gritam-lhes
para os libertarem do sono,
pois aquele que sobe deve cair
e aquele que dorme - deixem-no dormir mais profundamente.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Scammell e Veno Taufer reproduzida em The poetry of survival - Post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 49-50).