quarta-feira, 25 de junho de 2008

Andrew Motion

No sótão



Ainda que soubéssemos agora
que a tua roupa não seria mais
necessária guardámo-la,
lá em cima, numa arca fechada.

Às vezes lá estou eu, ajoelhado,
segurando-a, tentando reviver
o tempo em que a usaste, recordar
o tamanho real de braços e pulsos.

As minhas mãos descem por dentro
de mangas invisíveis, vazias,
hesitam, depois exibem
amostras da memória:

um feriado verde, um baptismo vermelho,
todas as tuas vidas incompletas
definhando através dos verões sombrios,
entrando na minha cabeça como poeira.



(versão minha; original reproduzido em The Penguin Book of Contemporary British Poetry, selecção de Blake Morrison e Andrew Motion, Penguin Books, Middlesex, 1986, 5ª edição, p. 132.)

domingo, 22 de junho de 2008

Anna Swir

Não sei ladrar



Estou a lavar o chão da cozinha
como se tivesse quatro patas,
na posição de cão.
Alcanço
por um momento
o bom humor
de cão.

É pena, só não consigo
ladrar.



(versão minha; de Talking to my body, tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 117).

Miroslav Holub

A porta



Vai e abre a porta.
Talvez lá fora exista
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.

Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a esquadrinhar.
Talvez vejas um rosto,
ou um olhar,
ou a imagem
de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
ele desaparecerá.

Vai e abre a porta.
Mesmo que só haja
o tiquetaque das trevas,
mesmo que só haja
o vento vazio,
mesmo que
não exista
nada,
vai e abre a porta.

Pelo menos
haverá
uma corrente de ar.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de Ian Milner, reproduzida em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª edição, p. 69).

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Helen Farish

O portão branco



Sinto-me tão contente não pude saber
que a última vez seria a última vez
que cruzaríamos o portão branco
do campo e que eu poderia regressar a casa
cheia de felicidade. Senhor, defende-me

das últimas vezes e se não puderes
defender-me das últimas vezes defende-me
da consciência delas. Leva de súbito
cada um de nós, fecha de súbito
o portão. Não me reveles coisa nenhuma.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 34).

terça-feira, 17 de junho de 2008

Helen Farish

Empire State Building



Fui mesmo até ao topo
para nos atirar
na forma de dois cêntimos,
as moedas caindo
em tristes linhas paralelas,
o espaço entre elas
vazio como o não-espaço
entre os arranha-céus erguidos em separado.
Mas cometi o erro de esperar
até que a cidade se iluminasse
em resposta ao crepúsculo
e com o crepúsculo
veio o vento e com o vento
neve como a neve de um filme.
Tão mágica que era como se
estivesses comigo
a tomar posição sobre os acontecimentos,
a tornar direitas linhas curvas,
a deslizar a tua mão fria
debaixo do meu casaco, procurando a pele
lisa das minhas costas, depois reclamando o direito
ao meu seio, incendiando-me.
As pessoas abandonariam o Norte o Sul e o Leste
para virem assistir
ao que se estava a passar na parte Oeste,
e à medida que o 80º piso se tornasse no 79º
e este no 78º, tu dirias Sabes,
sempre merecemos muito mais do que isso.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, p. 18.)

Helen Farish

Três poemas traduzidos por João Luís Barreto Guimarães.

domingo, 15 de junho de 2008

Helen Farish

Gémeas recém-nascidas


Em incubadoras separadas uma das gémeas estava a morrer.
Contra as ordens do médico, uma enfermeira juntou-as.



A gémea mais forte, a que não
tinha qualquer dificuldade, atirou
o seu braço recém-nascido para cima
da que queria partir,
e estabilizou o seu ritmo cardíaco, regularizou
tudo no corpo da que já
tivera que bastasse.

A mais forte, vai julgar
que é Deus, pois pode trazer de volta
a vida para onde já partira.
Vai ser mais duro para ela
do que para a que já conheceu
a separação, a solidão, lugares
que acabarão por nos fazer desejar.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 11.)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Wendell Berry

A paz das coisas bravias 


Quando o desespero do mundo cresce em mim 
e acordo na noite ao mínimo som 
com medo do que a minha vida 
e a dos meus filhos possam vir a ser,
avanço e deito-me ao pé da água onde o pato dos bosques 
aconchega a sua beleza e a garça real se alimenta. 
Entro na paz das coisas bravias 
que não impõem tributos às suas existências preparando-se 
para a dor. Fico na presença da água serena. 
E sinto, acima de mim, as estrelas cegas de dia
 aguardando com a sua luz. Por um instante 
participo da graça do mundo, e sou livre. 



  (versão minha; original aqui)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Po Chu-I (772 - 846)

Os filósofos: Lao-Tzu



"Aqueles que falam nada sabem:
Aqueles que sabem permanecem em silêncio."
Estas palavras, disseram-me,
Foram pronunciadas por Lao-Tzu;
Se acreditarmos que Lao-Tzu
Foi ele próprio um daqueles que sabiam,
Como explicar que tivesse escrito um livro
De cinco mil palavras?



(versão minha, a partir da tradução do chinês para o inglês de Arthur Walley, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 244)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 25 de maio de 2008

Mary Ruefle

A mão



O professor faz uma pergunta.
Tu sabes a resposta, desconfias
que és o único na sala de aula
que sabe a resposta, porque a pessoa
em questão és tu próprio, e nisso
és a maior autoridade viva,
mas não levantas a mão.
Levantas a tampa da tua carteira
e tiras uma maçã.
Olhas pela janela.
Não levantas a mão e há
uma beleza essencial nos teus dedos
que nem sequer tamborilam, permanecem
apenas rasos e descansados.
O professor repete a pergunta.
Para lá da janela, num ramo saliente,
um pisco agita as penas
e sente-se no ar a primavera.



(versão minha; original aqui)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Robert Pinsky

"Se pudesse escrever um grande poema,
deveria ser sobre o quê?"

(Perguntado por quatro alunos poetas das Escolas
do Illinois para Surdos e Deficientes Visuais)



Fogo: porque é rápido, e pode destruir.
Música: lugar onde a raiva tem o seu lugar.
Amor romântico - aquele que é frio ou estúpido pergunta porquê.
Signo: é assim uma linguagem, cheia de graça,

É assim visível, invisível, clara e escura,
É assim ruidosa e silenciosa e é contida
No interior de um corpo e explode no ar
Fora de um corpo a conquistar a partir da mente.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p.403.)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Robert Pinsky

"Ar um instrumento da língua"



Ar um instrumento da língua.
A língua um instrumento
Do corpo. O corpo
Um instrumento do espírito,
O espírito um ser do ar.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p. 402).

terça-feira, 20 de maio de 2008

Francisco Gálvez

Mensagens



Neste momento estou ausente,
mas podes deixar uma mensagem
e ligar-te-ei quando regressar.
Se és o amor
liga mais tarde, ou talvez outro dia;
se és a solidão
aguarda, em breve estarei contigo;
se és o suicida
marca outro número, o tempo urge;
se és a morte
elege outro destino, sou apenas tecnologia;
se és o pensamento
desiste, esta linha não medita;
se és a palavra
do regresso, aqui ninguém te pronuncia;
e se és uma voz anónima
a qualquer momento chegarei a casa:
fala depois de ouvires o sinal.



(versão minha; original aqui).

Reetika Vazinari

Sou eu, não estou em casa



É tarde na cidade e eu adormeço.
Vais ligar de novo? Terei ouvido
(por favor deixe a sua mensagem depois do sinal)

Tchekov? A ama B. Eu aplaudo
com prazer. B ama C. C não vai responder.
Na cidade é tarde, eu durmo,

e se o teu rosto se aproxima de mim como um mapa familiar
de desabrigo: velho mundo, novo hemisfério
(sou eu deixa uma mensagem depois do sinal)

então a história precipita-se para o volte-face
final, eu passo o testemunho tu desapareces
na cidade, é tarde e eu sonho

com núpcias outra vez, a acontecer por aqui,
dedicadas à nossa causa durante um ano,
deixa uma mensagem depois do sinal,

vou deixar-te uma chave, escuta a gravação
quando chegares, ou pega no auscultador.
É tarde na cidade e eu durmo.
Por favor deixa uma mensagem depois do sinal.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 207, pp. 212-213).

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Max Mendelsohn (poeta aos 12 anos)

Ode aos berlindes



Adoro o som dos berlindes
espalhando-se sobre o soalho gasto do chão,
como crianças a fugir e a jogar às escondidas.
Adoro ver berlindes brancos,
berlindes azuis,
berlindes verdes, pretos,
novos berlindes, velhos berlindes,
berlindes iridescentes,
com redemoinhos e fitas de vidro,
dançando sempre às voltas.
Adoro sentir os berlindes,
frescos, lisos,
rolando livremente na palma da mão,
como estrelas de faces macias
a iluminar o gasto mundo.



(versão minha; original aqui.)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Javier Salvago

Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos



Qaundo alguém já não é jovem, convence-se
de que o diabo sabe mais por ser velho,
e aceita que os anos nos ensinam
a distinguir a realidade do sonho.
E, por acaso, não. Talvez a vida apenas
nos apareça uma vez - quando temos
olhos para a apreciar - e logo começamos
a esquecer o seu rosto e o seu segredo.



(versão minha; de Variaciones y reincidencias, 1985.)

domingo, 11 de maio de 2008

Javier Salgado

Anúncio de primavera



A minha vida é feita de noites,
de lágrimas de estrelas, de luas
frias e silenciosas.
Como um anjo das trevas
habituaram-se os meus olhos às ruas
obscuras, à penumbra dos bares,
à luz, de néon, artificial.
Gentes, recém-chegadas da tarde,
asseguram que regressou a primavera
e no meu roupeiro só há fatos negros,
pressentimentos negros,
máscaras de amargura.
Senhora dos Céus Luminosos,
quando não for um maldito
farei umas asas
- como Ícaro -
e tentarei voar até ao sol.



(versão minha; de Canciones del amargo amor y outros poemas, 1977.)

domingo, 4 de maio de 2008

Al Zolynas

Amor na sala de aulas

- para os meus alunos


De tarde. Do outro lado do jardim, em Green Hall,
alguém começa a tocar no velho piano -
uma peça espontânea, viva e diletante,
cheia de uma melodia alegre e simples.
A música flutua entre nós na sala de aulas.

Estou em frente dos meus alunos
e falo-lhes de fragmentos de frases.
Peço-lhes que descubram os dez fragmentos
do parágrafo vinte e um da página quarenta e cinco.
Eles vieram de todas as partes
do mundo - Irão, Micronésia, África,
Japão, China, até de Los Angeles - e continuam
desejosos de me agradar. Falta menos
de metade do trimestre.

Inclinam-se sobre os livros e começam.
Os lábios de Hamid movem-se enquanto segue
o tortuoso labirinto sintáctico do Inglês.
Yoshie senta-se direita, perfeita com a sua ténue maquilhagem,
as pernas cruzadas, em rápida cadência ritmada
sacudindo o pé direito. Tony,
vindo de um ilha do Pacífico Sul,
espreguiça-se molemente e estende-se sobre a carteira.

A melodia flutua à nossa volta e entre nós,
na sala, quebrada aqui e ali, fragmentada,
recomeçada. Parece oriental, mas
pode ser jazz, ou blues - pode ser
qualquer coisa de qualquer lado.

"Não importa," quero gritar.
"Não se preocupem com fragmentos.
Entendê-los ou não. Tudo
é fragmento e tudo não é fragmento.
Oiçam a música, quão fragmentada,
quão cheia, como não podemos separá-la
do sol a cair de joelhos sobre toda a verdura,
deste movimento, como este momento
contém todos os fragmentos de ontem
e de tudo o que não iremos conhecer do amanhã!"

Em vez disso, mantenho um silêncio cobarde.
A música pára abruptamente;
eles terminam o seu trabalho,
e avançamos munidos das respostas correctas,
que é o mesmo que dizer
que separamos os fragmentos do todo.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, pp. 193-194).

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Leonard Nathan

Canção da bexiga



Num pedaço de papel higiénico,
Flutuando no mijo não evacuado,
Os lábios impressos e inteiros de uma mulher.

Nathan, alegra-te! O esgoto
Manda-te um grande beijo vermelho.
Ah, nada está perdido, se é humano.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 197)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Adam Zagajewski

Espelho auto-reflector



No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Robert Hass, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, p. 128.)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miller Williams

Animais



Penso na morte dos animais domésticos
como um marco no mar de mudanças das nossas vidas.
Penso como as coisas eram, quando as coisas eram diferentes.
Havia então um animal, um cão ou um gato,
não o que há agora, mas outro.
Penso como as coisas eram diferentes antes disso.
Havia outro então. E tu quase esqueceste.



(versão minha; original reproduzido em Being Alive, organização e introdução de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 3ª edição, 2007, p. 175).

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Robert Creeley

Assim o dizem



Debaixo da árvore sobre um pouco
de erva fofa sentei-me,

vi dois picapaus
felizes serem per-

turbados pela minha presença. E
porque não, pensei

para mim, por
que não.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, antologia organizada por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 18).

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Anna Swir

Recital de poesia



Enrosco-me em espiral
como um cão
que tem frio.

Quem me vai dizer
porque nasci,
a razão desta monstruosidade
chamada vida.

O telefone toca. Tenho de dar
um recital de poesia.

Entro.
Uma centena de pessoas, uma centena de pares de olhos.
Olham, esperam.
Eu sei porquê.

É suposto dizer-lhes
porque nasceram,
porque existe
esta monstruosidade chamada vida.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1988, p. 259).

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Anna Swir

O mar e o homem



Não subjugarás este mar
pela humildade ou pela exaltação.
Mas podes rir-te
na sua cara.

O riso
foi inventado pelos que
têm uma vida breve
como a explosão de uma gargalhada.

O mar eterno
nunca aprenderá a rir.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p.47).

domingo, 13 de abril de 2008

Laura Riding

O universo e eu



Não é exactamente isto que quero dizer
Não mais que sol é o sol.
Porém como dizê-lo mais rigorosamente,
Se o sol brilha, se não aproximadamente.
Que universo de inépcias!
Que instrumentos inimigos do sentido!
Talvez isto se aproxime de um significado
Ou talvez se transforme em acto de conhecimento.
Então penso que o universo e eu
Temos que viver juntos como estranhos e morrer -
Um amor azedo, cada qual duvidando
Se houve no outro algo para amar.
Não, é melhor para ambos estarmos seguros
Um do outro - exactamente onde
Exactamente eu e exactamente o universo
Falhamos em conhecermo-nos por um momento, por um verso.



(versão minha; original reproduzido in The great modern poets, Edited by Michael Schmidt, Quercus, London, s/d., p. 102).

terça-feira, 8 de abril de 2008

Li-Young Lee

Peço à minha mãe que cante



Ela começa, e a minha avó acompanha-a.
Mãe e filha cantam como jovens raparigas.
Se fosse vivo, o meu pai tocaria
o seu acordeão e balançaria como um barco.

Nunca estive em Pequim, ou no Palácio de Verão,
nem fiquei no grande Barco de Pedra a ver
a chuva a principiar sobre o Lago Kuen Ming, os veraneantes
a fugir pela relva fora.

Mas adoro ouvir tudo isto cantado;
como os nenúfares se enchem de chuva até
transbordarem, derramando água na água,
e voltam ao mesmo, e enchem-se com mais.

As duas mulheres começam a chorar.
Mas nem isto interrompe a sua canção.



(versão minha; original reproduzido in Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, pp. 241-242).

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Roger McGough

Fama



O melhor
de ser famoso

é quando desces
a rua

e as pessoas se viram
para te olhar

e vão contra as coisas.



****



Blues em tempo de guerra



O sexo é racionado
e o cão roeu
todos os cupões.



****



Sobrevivente



Todos os dias
penso na morte.
Na doença, na fome,
violência, terrorismo, guerra,
no fim do mundo.

Isto ajuda-me a manter a cabeça fria.



(versões minhas; poemas incluídos em The State of Poetry, Peguin, London, 2005).

sexta-feira, 28 de março de 2008

José Emílio Pacheco

Indesejável



Não me deixa passar o guarda.
Ultrapassei o limite de idade.
Provenho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta-me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na fábrica imensa.
Desempregaram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma cunha.
Levo aqui deste mundo vasto tempo.
E os nossos amos dizem que já é hora
de me calar e de me fundir com o lixo.



(versão minha)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Bill Knott

Poema



Queridos rapazes e raparigas,
não se esqueçam por favor
de sublinhar as minhas palavras
depois de as apagarem.



****



Na encruzilhada



O vento traz uma folha de papel até aos meus pés.

Apanho-a.

Não é uma petição para a minha morte.



****



Errado


Quero ser mal interpretado;
isto é,
interpretado a partir da tua perspectiva.



****



O que eu disse



O humor foi banido do céu das hienas.



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Poema putativo da época samurai



ele escreveu um haiku
antes da sua lâmina cortar a minha cabeça
por que não um tanka
um tanka permitir-me-ia viver
por mais catorze sílabas.



(versões minhas)