segunda-feira, 31 de maio de 2010

Primo Levi

Segunda-feira



Há alguma coisa mais triste do que um combóio
Que parte à hora certa,
Que só tem uma voz,
Que só tem uma via?
Não há nada mais triste do que um combóio.

Só talvez um cavalo de tiro.
Debaixo do governo das rédeas
Nem sequer pode olhar para o lado.
A sua vida é caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive largo tempo na solidão,
Se pensa que chegou a sua hora,
Também um homem é uma coisa triste.


17 Janeiro 1946



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª edição, Londres, 1992, p. 11, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p.37).

sábado, 29 de maio de 2010

Roger Wolfe

Artigo não sujeito à legislação em vigor



Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa: 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 269).

domingo, 23 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Confessar tudo



Queria dizer-te
que nunca passeei com ela,
que nenhuma montra devolveu a nossa silhueta reunida
nem o seu peito pressionou com o seu mudo acordeão os nossos cristais,

que nunca contemplei a sua nudez em lugares inquietantes,
que nem sequer sei o seu nome,
que não sei do que me estás a falar.

Queria dizer-te que não é verdade,
que no domingo andei a passear sozinho com o cão,
que o cão nunca a quis.

Queria dizer-te que nunca viveu comigo,
que deverias saber o que eu sei,
que era feia, corcunda e reaccionária,

dizer-te que sempre te fui fiel,
que nunca existiu,
que nunca jamais a quis.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 132).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

José Agudo

A aprendizagem



Como o calor chega aos lençóis,
como chega o desejo aos lábios.

Com a premonição de uma bela recordação,
assim chega este dia,
calando até aos ossos.

Inventariarei os meus pertences
e esperarei que o sol aqueça
as minhas roupas e o meu corpo;
meditarei sobre as horas que vivi
e retirarei ensinamento dos meus fracassos.

E direi a mim mesmo que busco
aquilo que me aguarda
para saber o que espero
e a que sonhos convêm os meus esforços.

E não reclamarei mais ilusões
nem pedirei outro deus
que o deus que me compreenda
e encontre explicação para os meus pecados.

Elegerei o caminho que a idade
me mostre como bom,
conhecendo as forças que me assistem,
reconhecendo aquelas de que dependo.

E deixarei para trás quanto fui,
sem que o rancor me vença,
sem atender a mais disposições
além de estar em paz comigo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 39).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dan Pagis

Escrito a lápis num vagão selado



Aqui neste vagão apinhado
eu Eva
e o meu filho Abel
se virem o meu filho mais velho
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu



(Versão minha, a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Robert Friend reproduzida em The poetry of survival, organização, prefácio e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª ed. (?), Londres, 1991, p. 221).

domingo, 16 de maio de 2010

Nizar Qabbani

Quando te vejo



Quando te vejo
Perco a esperança na poesia,
Como se apenas tu me pudesses criar.
És bela
E se penso na tua beleza
A minha respiração fraqueja,
A minha língua bloqueia,
As minhas palavras falham.
Salva-me de tudo isto. Sê menos bela
E permite-me reecontrar-me com a minha inspiração.
Sê uma mulher que se maquilha e perfuma,
Que engravida e dá à luz,
Sê como as outras mulheres
E reconcilia-me com a linguagem
Para que eu possa voltar a escrever.



(Versão minha a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian love poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, London, 1998, p. 97).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Final



A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p. 48).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neus Aguado

As tábuas da lei



Saber que cometes adultério
para não voltares a cometê-lo
que matas para não voltar a matar
que roubas para não voltares a roubar
que cobiças para não voltares a cobiçar.
E ainda que não te apedrejem
nem te cortem a mão
nem te arranquem os olhos
saber que a alma está completamente mutilada e se arrasta peregrina
esbarrando com os anjos que um dia tu mesma mandaste sangrar.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 114).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Isso é tudo



Dá no mesmo, disseste, é só sexo,
porém esqueceste que nós vivemos dessas coisas;
só aqueles que fizeram a lei se ocupam
da virtude, da paz e da nobreza.

Essa justiça natural de que falas
fez-nos maus filhos, ateus e ladrões.
Esses homens, todavia, criaram deuses,
sacerdotes, polícias e orfanatos.

Nós comemos, bebemos e gozamos
pagando por isso o preço do salário.
Isso é tudo, somos mercenários, guardamos o Estado
e não merecemos consideração alguma.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aqui - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 137. Deste poeta existe em português Quanto sei de mim, um conjunto de poemas traduzido por Carlos da Veiga Ferreira, com prefácio de Nuno Júdice, Teorema, Lisboa, 2001; este mesmo poema aparece aí traduzido na p.32).

domingo, 9 de maio de 2010

José Agudo

Talvez um dia de novo



Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p 29).

sexta-feira, 7 de maio de 2010

(Hors-série)

Excertos de dois e-mails de um leitor devidamente identificado:
"Viva (...),

(...) ando a desenvolver um "ciclo do papel higiénico" em momentos análogos ao que o nosso HH narra em "Vida e obra de um poeta". Como me deu um ataque súbito de angústia da influência, estou agora mesmo a tentar desenvolver a argumentação que te convença a incluir o primeiro "borrão" (escrito numa primeira versão em papel higiénico) no Trapézio. A questão é que, não se tratando tecnicamente de uma tradução, a verdade é que os textos deveriam ter sido escritos por uma pessoa que falasse outra língua (não me perguntes como o sei) que não só nunca existiu como, existindo, jamais os teria escrito. Estranho? Eu sei, mas acho que é precisamente essa qualidade de estranheza alcançada que faz com que não desmereça de figurar na tua antologia digital. (...) Convencido? Aqui vai o Borrão (o primeiro de uma reciclagem de mitos clássicos):

Mito reciclado de Orfeu e Eurídice

(...) no último instante, Orfeu lembrou-se do seu canto, o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices. Olhando para trás, fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos, enquanto via, serenamente, a sombra de Eurídice desaparecer (...)


Dir-me-ás, não querendo discutir a qualidade do dito, que nem sequer se trata de um poema e eu respondo-te, então, que não chega a ser sequer uma prosa. Em desespero de causa sugiro que se corte às postas respeitando a pontuação:


(...) no último instante,
Orfeu lembrou-se do seu canto,
o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices.
Olhando para trás,
fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos,
enquanto via,
serenamente,
a sombra de Eurídice desaparecer (...)


(...) podes identificar-me como autor "contrafeito", ou como alguém que de algum modo opera uma contrafacção (não é impunemente que se desfaz um mito de amor - ainda por cima tão associado ao acto poético - e o transforma num puro gesto de crueldade), como um moedeiro falso, enfim, para os devidos efeitos Ricardo Castro Ferreira serve. E, assim, as agora já vinte linhas de fama ficarão cozidas à minha biografia, até ao momento tão obscura.
(...)

abraço"


(Ricardo Castro Ferreira colaborou anteriormente neste blogue com estes dois trabalhos de tradução).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Neus Aguado

Conselhos domésticos



Levar a alma a passear como quem leva um cão,
não permitir que te ladre nem que te lamba,
engomá-la depois de bronzeada
e procurar que não se queime, ainda que arda.
Consumir o fogo restante e, se não há mais remédio,
mandá-la de vez para a fogueira ou para a tinturaria.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 2003, p. 116).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Alguém parte para o exílio



Alguém parte para o exílio.

E não sei se sou eu
o homem que se vai
ou o país que fica.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 44).

sábado, 1 de maio de 2010

José Agudo

Ne me quitte pas



Entro num bar
e ouve-se o Ne me quitte pas
de um Jacques Brel
nostálgico e distante.

Peço uma cerveja,
acendo um cigarro
e penso mais uma vez
que deveria largá-lo.

Sem saber por quê
recordo-me de sessenta e oito
e da Paris de então.
Eu era todavia muito jovem
e não estive em Paris
em maio de sessenta e oito.
Não estive em Paris.
Ne me quitte pas...

Acendo outro cigarro
e lembro-me que a minha filha
anda pelos quinze
ou tem dezasseis, não sei.

Irrita-me esta cerveja quente,
o fumo, a luz tísica das lâmpadas,
os gritos desses miúdos,
o murmurinho das conversas,
o cheiro a cozinha e a fritos.
- Barman,
que a música não se oiça!

Este lugar deprime-me
e no entanto aguento.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Mnuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 32).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Roger Wolfe

Poesia



Pergunta-me o que é a poesia.
A poesia, respondo-lhe,
é uma manada de vacas a atravessar uma ponte
por cima de uma auto-estrada.

Então olha-me, e sorri,
e isso é também
poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986-2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 49).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roger Wolfe

Glosa de Celaya



A poesia
é uma arma
carregada de futuro.

E o futuro
é do Banco
Santander.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 262).

sábado, 24 de abril de 2010

José María Micó

Breve História de Espanha



"Quando é preciso descobrir um Novo Mundo
ou domar o mouro,
ou há que medir o cinturão de ouro
do Equador, ou levantar sobre o profundo
espanto do erro negro que pesa
sobre a Cristandade o pensamento
que é amor em Teresa
e é claridade em Trento,
quando há que consumar a maravilha
de alguma nova façanha,
os anjos que estão à beira do seu Trono
olham para Deus... e pensam em Espanha."
(José María Pemán)




Tenho em casa o Poema
da Besta e o Anjo,
inveja de bibliófilos:
"Saragoça, Edições Jerarquía,
abril de mil novecentos e trinta e oito,
Segundo Ano Triunfal."
Certa dedicatória
do poeta a um amigo
seguramente médico
faz mais raro o meu exemplar.
Na primeira página, o tipógrafo
das Indústrias Gráficas Uriarte
dispôs sabiamente,
sobre papel precioso,
umas letras douradas:
"Franco, Calvo Sotelo, José António,
Sanjurjo, Mola."
Ainda se torna mais belo
o brilho desses nomes.
Com o seu fulgor acende-se
a lembrança e leva-me
às mesmas paragens,
ao campo descuidado de Pina de Ebro,
abril de mil novecentos e trinta e oito:
ali um mouro domado
por algum anjo espanhol daqueles
que olhavam para Deus
ceifou com tiros de espingarda cristã,
não com uma cimitarra feroz e herege,
os dias do soldado
Francisco Gómez Cuéllar,
morto aos trinta anos
com tempo suficiente
para manter viva a minha linhagem.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, pp. 249-250).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Daniel Bristol

Devolucionista



Dantes eu era um oceano cheio de vida. Podia dar conta
de tudo, pois era com isso que se contava. Alargava-me
por milhas e costumava abarcar toda a terra. Costumava ser tudo
para toda a gente; terás só de acreditar na minha palavra.

Costumava ser um grande lago. Costumava ser o maior de todos.
Era o ventre de onde nascia a lua logo que o sol se punha.
Estava sempre a brilhar, chovesse ou fizesse sol, fosse dia ou noite.
Fui o lugar aonde trouxeste a tua namorada para a pedir em casamento.
Costumavas meditar sobre os teus dias à beira das minhas águas.

Depois transformei-me num pequeno lago perfeito para velejar. Os melhores
amigos passavam muito tempo a pescar e a rir até que o dia
terminava. Eu costumava ser o local de onde assistias ao fogo
de artifício do 4 de Julho. E gelei em Dezembro quando fiquei a saber que
o teu melhor amigo tinha morrido. Costumava até abraçar o chão
onde jaz agora o cão da tua família.

E depois fui um rio, correndo rapidamente, saltando o tempo. Costumava
transformar rochas aguçadas em pedras perfeitas para lançar sobre a água.
Costumava respirar de um modo constante. Costumava seguir o meu próprio
ritmo. Tu costumavas chegar-te a mim apenas para lavares os pés sujos.
Juntos observávamos as estrelas; costumávamos verter a mesma quantidade
de lágrimas. Vi-te florir e crescer; juntos partilhámos os melhores anos.

Mas agora sou um afluente debaixo de uma ponte desconhecida, algures. O tempo
encolheu-me, e aqui estou na minha solidão. Alguns dias são
melhores do que outros; a minha água flui e depois seca. Ter-me-ia
ajudado ter alguma companhia, ter junto de mim a minha amiga.
Mas na verdade não sei quando voltarei a vê-la.



(Versão minha; o original, reproduzido em Best modern voices: words for the new millennium, vol. 1, Wordclay, 2010, p. 5, pode ser lido algures por aqui).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Katherine Hearst

Em boa companhia



E qual é o problema se tenho
o cabelo encaracolado
e as ancas largas?
Talvez não tenha os
dedos longos e elegantes que às vezes
gostaria de ter.
Posso colher margaridas na mesma.

Confesso -
não sou capaz de dizer o ano
em que Napoleão combateu em Waterloo
ou o número atómico do urânio.

É verdade que quando canto
me esqueço das palavras -
o meu chuveiro ainda não correu comigo.

Insuficiências
não me faltam.
Muitas coisas que não sou capaz de fazer,
muitas coisas que não faço
suficientemente bem.

Por outro lado, danço no ritmo certo.
Tenho o último parágrafo de O Grande Gatsby
guardado na memória
e faço um batido de fruta dos diabos.

Por cada parte minha que é insatisfatória
há uma parte
inteiramente satisfatória -
talvez até encantadora
ou, nos meus melhores dias,
maravilhosa.

Eu sou a minha única e fiável companhia nesta vida,
os amigos são arrastados pela corrente, a família desaparece e
os amantes vão para onde vão os amantes por muito
que queiramos que eles fiquem.

Tudo bem.
Eu gosto de mim.

E sou uma companhia muito boa.



(Versão minha; original reproduzido em Best modern voices: words for the millenium, vol. 1, Wordclay, 2010, pp. 70-71).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Roger Wolfe

Sabedoria



Uma mulher
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.

Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.

São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.



(Versão minha; original aqui).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Roger Wolfe

Pálpebra



Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Frances Driscoll

Vida real



Mas na vida real, começo eu. Só que o Doug
interrompe: O que aconteceu naquela noite foi
a vida real. Eu não sei do que é que ele está
a falar. Vida real é a minha irmã
estudar todas as semanas as notícias de bancarrota
que vêm no jornal e continuar a ter
dificuldades com as suas consoantes fricativas.
É o meu vidente descobrir nas cartas setas
de amor e correntes de vida. É o meu filho dizer-me
que eu sou a pessoa mais pateta que ele conhece
e trazer-me, de um concerto para casa, um par
de louras embriagadas do Mississippi,
fugidas de uma viagem de finalistas, que se recusam
a responder às minhas perguntas - Onde
está o resto da turma. Onde estão
os responsáveis por elas. É enxaguar os pratos
no lavatório da casa de banho depois dos canos da cozinha
terem rebentado sem aviso prévio e, cansada
das poses de Electra derramada na loiça chinesa
azul, arranjar espaço numa despensa
que alguém fez sem ter em conta as minhas
necessidades - e sem uma única prateleira.
Vida real é a Diana a escrever de Head
of the Tide, Maine, dizendo que anda feliz da vida
a reparar móveis estragados e a fixar lâmpadas.
É a Mary Kay a comer batatas fritas com passas
e a sentir-se furiosa com o pai dos seus filhos
por ele ter adoecido com pneumonia
numa viagem ao campo que ela era a única
a merecer. É a Bonnie, reconciliada com a estabilidade
negada por um homem, a produzir sons quase inaudíveis
enquanto vai engolindo alface misturada com geleia.
Na vida real uma menina balança-se
de um ramo de árvore florida sobre o meu terraço.
Tu sabes o segredo das árvores, grita ela
para a sua amiga. Quem espera
sempre alcança. Na vida real o meu peito fica apertado
e eu perdoo-lhe todas as flores brancas
que as suas pernas descuidadas atiraram ao chão.
Não esta menina. Nunca esta menina. Não
na vida real.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry from "Sojourner" - a feminist anthology, organização e selecção de Ruth Lepson e Lynne Yamaguchi e introdução de Mary Loeffelholz, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2004, pp. 49-50).

sábado, 27 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu nunca fui rei



Eu nunca fui rei
Nem provenho de uma família real
Mas pensar que agora me pertences
Dá-me uma sensação
De poder sobre os cinco continentes,
De controlo da chuva
E dos carros triunfais do vento,
De posse de milhares de acres
Sobre o sol,
De domínio sobre povos
Que nunca antes foram dominados,
E de prazer de brincar com as estrelas do sistema solar
Como uma criança brinca com conchas.
Eu nunca fui rei
Nem quero ser;
Mas quando sinto que adormeces
Na palma da minha mão
Imagino
Que sou um Czar da Rússia,
Um Xá da Pérsia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p.71).

sábado, 20 de março de 2010

Fabio Pusterla

Sábado em Sintra



O último pombo,
aquele que continua quando o resto do bando
já anda espalhado pelos telhados,
oculto entre muros,
o solitário em voo picado sobre as praças,
cego pelo sol,
talvez simplesmente mais silencioso do que os outros, indiferente
a esse estúpido cacarejar horizontal,
- enquanto desajeitadamente se perde,
grão a grão, o alimento oferecido -,
aquele que se atira para o vazio
de uma aventura imaginária, uma ameaça,
o medo de um assobio,
e extrai disso o voo e converte o perigo
num jogo de descidas e subidas bruscas,
a fuga para uma insensata corrida com a sombra
rápida da gaivota,
uma sombra que verdadeiramente voa e desaparece,
o pássaro que procura por todo o lado o vento das ruas
e das chaminés, que mergulha no trânsito e deixa
um monte repugnante de penas cinzentas
mesmo ao pé da tampa do esgoto,
não o olhes.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chad Davidson reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 52).

quarta-feira, 17 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Nuala Ní Dhomhnail

O destino da linguagem



Disponho a minha esperança na água
neste pequeno barco
da linguagem, tal como alguém pode pôr
um menino

num cesto de folhas iridescentes
entrançadas
com o fundo calafetado
com betume e resina,

colocando depois o conjunto entre
as junças
e os juncos da margem
de um rio

apenas para que vá daqui para ali
sem saber onde pode acabar;
no colo, talvez,
de alguma filha do Faraó.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Paul Muldoon, reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 328).

terça-feira, 9 de março de 2010

Thomas Brown

Respiração



às vezes
conhecemos alguém
que nos deixa sem respiração
e
temos medo
de voltar a respirar
sabendo
que ao fazê-lo
tudo pode mudar
e
queremos ficar presos
para sempre
a esse momento
em que tudo
parece tão perfeito
e certo
mas
não temos alternativa
a não ser
respirar de novo
e fazê-lo outra vez
até
que chegue o dia em que
já não o conseguimos fazer
e
podemos ter a esperança de que
entre esses momentos
a pessoa
que em tempos nos roubou a respiração
volte a fazê-lo
uma e outra vez
prometendo
sempre devolver-no-la
embora
planeando sempre
roubá-la
mais uma vez .



(Versão minha, com a colaboração de C.; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the millennium, Wordclay, 2008, pp. 11-12).

sábado, 6 de março de 2010

Spencer Schenk-Wasson

Onde o céu acaba



O ceú acaba onde as montanhas
Perfuram o nevoeiro do anoitecer

O céu acaba onde a pintura da natureza
Atravessa o laranja dourado do horizonte

O céu acaba algures entre
As luzes cintilantes da cidade e o vazio do espaço

O céu acaba num lugar onde a tua
Consciência oscila entre a realidade e a beleza

O céu acaba num lugar que é tão magnífico
Que pode ser só imaginação tua



(Versão minha; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the new millennium, Wordclay, 2008, p. 8).

quarta-feira, 3 de março de 2010

Nizar Qabbani

Quando encontrares um homem



Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 135).

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu conquisto o universo com palavras



Eu conquisto o universo com palavras.
Desonro a língua materna,
A sintaxe, a gramática,
Os verbos e os nomes,
Violo a virgindade das coisas
E crio uma língua nova
Que esconde o segredo do fogo
E o segredo da água.
Ilumino a nova era
E detenho o tempo nos teus olhos,
Apagando a linha que separa
Este instante da passagem dos anos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 223).